Entrevista | Datassette: um museu virtual de revistas clássicas

Se hoje em dia as revistas impressas têm se tornado cada dia mais escassas, não foi assim na década de 90 e início dos anos 2000. Não havia internet, e a única fonte de informação para qualquer gamer dessa época eram as publicações impressas — desde Game Power à Ação Games, Super Game Power à EGM, revistas de detonados, com demos de games, com jogos completos… Era revista pra tudo quanto é gosto e necessidade.

Mas muita gente não teve o prazer de folhear aquelas páginas que nos traziam informações inéditas, direto do Japão, com semanas, e até meses de atraso. Foi pensando nesse público, e nos saudosistas como os velhinhos do Nerd Interior, que surgiu o Datassette, uma das maiores (senão a maior) bibliotecas virtuais gratuitas sobre revistas de games. E o acervo deles não se restringe apenas à isso – tem manuais, revistas de software, hardware, tecnologia em geral.

E foi em meio à esse cheirinho gostoso de mofo que batemos um papo com Leonardo Roman da Rosa, o fundador do Datassette, que nos contou mais sobre esse “museu digital”, seus gostos pessoais e nos levou de volta àquela saudosa época – que muita gente que vai ler não viveu, mas vai querer embarcar num DeLorean pra conhecer.

[Nerd Interior]  Como e quando surgiu o Datassette? O nome do site era Data Cassete – por que a mudança de nome?

[Leonardo – Datassette] Surgiu da minha vontade de reunir o material nacional sobre videogames e computadores clássicos que eu encontrava espalhado pela internet. O site está no ar desde 2003. Já passou por algumas hospedagens e revisões. Na última revisão pretendi internacionalizar um pouco, então criei o domínio .org e usei o nome do leitor de fitas cassete dos computadores da Commodore. O domínio original continua ativo, só redireciona para o site atual.

Qual tipo de informação você começou a disponibilizar no site? A intenção sempre foi ter diversos tipos de publicação, ou você pretendia se ater à apenas um tipo específico?

Comecei com alguns jogos em fita cassete de um computador nacional (o TK2000) e também com algumas revistas sobre videogames e computadores. Como colecionador de micros e videogames, sempre tive a intenção de reunir o máximo de material nacional que eu encontrava a respeito, para fins de preservação e para facilitar as buscas de colegas.

De todos os tipos de informações que você disponibiliza, qual deles é o mais acessado? E qual o mais difícil de encontrar e disponibilizar?

Sem dúvida a seção das revistas de videogames ainda é a parte mais acessada do site. Entre elas, a revista Ação Games é a que ainda recebe mais acessos. O material mais difícil de encontrar sobre videogames ou computadores são as revistas de editoras pequenas que tiveram pouca tiragem e manuais de clones nacionais que pouca gente tinha. Ou seja, material que sempre foi escasso hoje é quase impossível ver.

Falando em disponibilizar materiais, como é que você faz esse processo? Como consegue os scans das revistas?

Além de digitalizar por conta própria, também sempre acessei outros fóruns e sites de gente que já digitalizava as revistas. Grande parte delas veio do grupo do Orkut de digitalização de revistas brasileiras de videogame. Foi um trabalho de formiguinha reunir todo o material. E depois que o site começou a ganhar visibilidade, também apareceram os colaboradores diretos.

Tem alguma publicação que costuma ser muito pedida, e que você tem dificuldade em encontrar? Qual foi aquela que mais lhe deu trabalho até hoje?

Por incrível que pareça recebo muito mais colaborações do que pedidos. Mas teve um caso legal de uma pessoa que entrou em contato há cerca de um ano procurando uma revista Top Games que ele não lembrava qual era. Alguns meses depois ele conseguiu, pelo menos, uma foto da capa da revista, depois de procurar muito. Era a Top Games Especial nº 7. Se alguém tiver essa revista para digitalizar, com certeza ele agradecerá.

De maneira geral, as Ação Games de tamanho grande dão trabalho por não caberem na maioria dos scanners. Cada página precisa ser digitalizada em duas partes. Mas o que me deu mais trabalho até hoje foi o livro Os Mestres do Jogo, sobre a história da Nintendo. Foram 500 páginas escaneadas e tratadas e ainda tive que recuperar a capa e a contracapa.

Você já encontrou algum problema com alguma publicação por conta de você disponibilizar gratuitamente esse material?

Não tive problemas com isso. Até por que nunca disponibilizo publicações que ainda estejam em circulação, que possam ser compradas em forma física ou digital. O objetivo do site é preservar a história das publicações sobre videogames e computadores sem prejudicar quem está produzindo material atualmente.

Falando mais especificamente das publicações relacionadas à games… Costumava as acompanhar na época em que eram lançadas? Você tem alguma favorita?

Sim, acompanhei as principais publicações sobre games dos anos 90: Ação Games, SuperGame, VideoGame, SuperGamePower e também algumas sobre jogos de computador como a Computer & Games. Vivi plenamente essa era onde a única forma de ficar por dentro das novidades e macetes de jogos era através das publicações impressas. Não chego a ter uma favorita. Dessas que citei, todas tinham um conteúdo decente para o público-alvo. Embora hoje sei que elas nem se comparavam ao nível das publicações americanas e inglesas que começaram a falar sobre games uma década antes.

Acompanha publicações mais recentes de games, ou de algo relacionado à cultura pop como um todo?

Não acompanho publicações que tratam de games mais recentes. Nesse caso me informo através de sites especializados ou sites de tecnologia. Mas acompanho de forma esporádica, algumas publicações recentes sobre games da época. Temos bastante gente no Brasil fazendo releituras das revistas antigas tanto em formato digital quanto impresso mesmo.

O que você acha da cobertura dada aos games hoje em dia em relação à época dessas publicações – acha que o material está melhor, pior, mais raso, mais completo, evoluiu, involuiu…?

Está mais abrangente e mais completo, sem dúvida. Até pelo acesso à informação ser muito mais difundido do que quando não tínhamos internet. Basta alguns minutos assistindo a um gameplay no Youtube para você concluir se gosta ou não de um jogo. Já não dependemos somente das mídias especializadas. Por outro lado, o fato de qualquer um poder divulgar informação dificulta um pouco encontrar os melhores conteúdos.

Você tem o perfil das pessoas que buscam baixar as publicações? São em sua maioria pessoas querendo rever esse material ou gente que não conhecia as publicações?

Não tenho informações precisas, mas a enorme maioria são pessoas que viveram a época dessas publicações. Muita gente quer rever o material e outros querem ver publicações que não haviam comprado ou que realmente não conheciam.

O que você particularmente acredita que faz com que pessoas mais jovens, que mal tiveram contato com publicações impressas, venham a ter interesse em conhecer esse tipo de material, em especial por se tratar de algo datado?

Talvez por curiosidade em ver quais eram as novidades e lançamentos a mais de 20 anos, saber como nos mantínhamos informados antes da internet, ou para alguma pesquisa na área. É até engraçado, mas a maioria das publicações do começo dos anos 80 que estão no site eu só fui conhecer recentemente por ser muito novo naquele tempo.

Como o site se mantém? Existe alguma maneira das pessoas ajudarem – seja com contribuições de revistas ou financeira?

Até o momento mantenho o site somente com recursos próprios. Criei recentemente uma conta no Patreon para quem quiser ajudar com os custos de hospedagem. Quanto as contribuições de material, os colaboradores podem fazer o envio criando uma conta no site ou me informando onde baixar o material.