Review | Castlevania (Netflix)

No último dia 7, a Netflix liberou para o público a primeira temporada de Castlevania, animação que pretendia trazer às telas a história do clã dos Belmont, lendária família de caçadores de criaturas demoníacas, contra o Lorde Drácula, poderoso vampiro que almeja destruir a humanidade. Desde seu anúncio, a série têm sido aguardada com ansiedade pelos fãs da franquia de terror/aventura da Konami, bem como por todos aqueles que anseiam por boas adaptações dos games para outras mídias. E agora com a vasta lista de episódios – quatro – dessa primeira temporada no ar, fica a dúvida: ficarão fãs e curiosos satisfeitos com o resultado que, contando com Warren Ellis (Marvel, DC, Vertigo, Wildstorm, Image) no time de redatores, parecia ser promissor?

A resposta é sim e não. Se por um lado os quatro episódios são sim de uma boa qualidade, uma ambientação interessante, além do bom uso de elementos de terror bem dosados com cenas de ação pontuais, por outro lado quatro episódios são pouca coisa, e deixam aquela ânsia por mais –  me lembrou da época em que comprava revistas de games nos anos 2000, acreditando que nela vinham games completos; e qual não era minha surpresa quando, depois de adorar aquelas duas primeiras fases, eu descobria o que queria dizer “jogo demo”.

Vamos do início: há cerca de 10 anos, nosso querido Warren Ellis, famoso escritor de HQs, anunciou que estava trabalhando em um filme animado de Castlevania. Dez anos atrás – quando eu ainda estava sendo enganado por revistas de jogos demo. O projeto caminhou bem vagarosamente, e vários anos depois, encontrou amparo na Netflix, onde Ellis teve que adaptar o roteiro para um seriado. E assim nasceu nosso objeto de análise.

A premissa da série é simples, e antes que você se pergunte: sim, é baseada em um dos games da série – Castlevania III – Dracula’s Curse, lançado em 1989 para o NES. Acontece o seguinte: ainda na Idade Média, Vlad Tepes, o nosso amigo Drácula, não gosta da humanidade como todo bom misantropo, e dedica sua vida a combate-la. Até o dia em que adentra em seu castelo a cientista sonhadora Lisa, que o convence a dar uma chance aos seres humanos enquanto vivem uma história de amor. Mas como nada que é bom dura muito tempo na ficção, a Igreja, através da Inquisição, captura e queima viva Lisa Tepes, acusando-a de bruxaria. E assim nasce uma praga: dentro de um ano, Vlad Dracula Tepes, antes tido como uma lenda soturna, vai reunir um exército vindo do inferno para levar a vida de todos os que mataram sua amada e não se levantaram contra isso. Depois disso, somos introduzidos ao beberrão Trevor Belmont, último integrante da família famosa por caçar monstros e entidades malignas, que ao ouvir sobre a ameaça de Drácula tem que deixar seu exílio de lado para combate-lo.

São quatro episódios que se dedicam a tentar desenvolver um pouco desses personagens principais: eu disse tentam, pois não chegam a se aprofundar muito além dos velhos (e até esperados) clichês do vilão malvado que quer a morte de todos, mas tal qual um vilão de tokusatsu ou de algum filme que saiu direto em DVD do Van Damme, lhes dá um período de tempo para sobreviverem; o herói relutante, que precisa encarar seus próprios receios até “fazer o que deve ser feito”; até a Igreja é apresentada como uma entidade totalmente nefasta e maligna (essa dava pra esperar do Ellis). Heranças da própria historiografia de Castlevania? Talvez. Mas que as coisas poderiam ter sido um pouco tratadas de maneira um pouco menos maniqueísta, ah, isso poderiam sim.

Além disso, também incomodam alguns quesitos da parte técnica: gostei da escolha do estilo de animação, semelhante em vários momentos a um anime – mas que em vários momentos se assemelha às famigeradas “histórias desanimadas” da Marvel, que eram aquelas versões com quase nenhum movimento que a editora lançou há um bom tempo atrás, envolvendo algumas de suas grandes obras. Por vezes a coisa não flui, a animação parece travada e meio preguiçosa até – embora as cenas de ação sejam muito bem feitas e coreografadas.

Por falar em preguiça, a dublagem me passou um pouco dessa sensação – seja a original em inglês, que tem entre seus nomes Richard Armitage, James Callis e Graham McTavish, seja a brasileira. As vozes não deram liga e sinceramente, me pareceu que estava bem frio no dia das gravações e todos estavam todos meio preocupados em ir pra casa se aquecer e desfrutar um bom chocolate quente.

Mas não precisa abandonar este review e mandar e-mails para a Netflix desejando-lhe a morte por conta de Castlevania: a série tem sim coisa boa!

A ambientação da série é toda muito boa – desde figurinos, cenários, aquele clima com o “quê” gótico, tudo mais soa bem interessante – menos, como eu já disse antes, os diálogos, que chegam a inserir inclusive gírias atuais naquela garotada descolada e avant-garde de 1475. O clima de terror bem dosado, aliado a um gore bem gráfico, fazem com que a série se torne mais interessante, em especial pelo contraste com cenas de bom humor mais pontuais.

Agrada também a maneira como o roteiro caminha nesses quatro episódios, sem preocupação de acelerar as coisas demais para nos apresentar logo de cara o esperado grande embate da série – claramente ficou a sensação de história incompleta, mas que é natural de se prever quando se tem pela frente uma quantidade tão pequena de capítulos. E sejamos sinceros: os cerca de 90 minutos totais dos episódios passam bem rápidos aos nossos olhos, sem se tornarem cansativos – mesmo nos momentos mais lentos, onde os personagens deveriam ser um pouco mais desenvolvidos.

No mais, a obra é bem fiel aos games em que se inspirou, uma vez que poderia ter optado por um lado mais cool, ou pela verve da ação frenética, mas prefere dar lugar à aventura, com direito a exploração de ambientes subterrâneos – faltou ele precisar ter que voltar ao início dela, e retornar ao fim novamente para encontrar algum item secreto. Estão lá o chicote, as espadas, as magias, os vampiros. Mas agora falta o game completo, uma vez que essa versão demo foi divertida, mas terminou bem logo após o prólogo, quando “o bicho iria realmente pegar” – uma expressão também característica da juventude hipster da Idade Média.

 

 

Os quatro episódios da primeira temporada de Castelvania estão disponíveis na Netflix.