Review | South Park – A Fenda que Abunda Força

A Obsidian surpreendeu a todos quando, em 2014, praticamente transpôs South Park para os videogames. South Park – The Stick of Truth era surpreendente por quase te fazer acreditar que um episódio da animação estava rolando na sua TV quando, na verdade, você estava controlando todas as ações. Agora, em 2017, a Ubisoft San Francisco tomou as rédeas da série e apresentou South Park – A Fenda que Abunda Força, uma continuação da aventura anterior dos meninos, com o mesmo sarcasmo, humor escatológico (que nem sempre é bom) e peidos. Muitos peidos.

Começando logo após os eventos de Stick of Truth, em A Fenda que Abunda Força você ainda encarna o Novato, mas desta vez a brincadeira é outra. Agora, você se une a Eric Cartman e outros amigos para formar o grupo de super-heróis Guaxinim e Amigos, que possui um plano de resgatar um gato cuja recompensa pode ajudar a construir a franquia milionária de filmes e séries da equipe. No entanto, Cartman e seu bando não esperavam que os Amigos da Liberdade, liderados por Timmy, o garoto em cadeira de rodas, pudesse interferir em seus planos. Com isso, uma pequena Guerra Civil se inicia entre os “super-heróis”.

A Ubisoft San Francisco bem que tentou deixar o combate de South Park – A Fenda que Abunda Força mais complexo e exigente que o primeiro jogo, mas o resultado não foi dos melhores. Ao contrário de seu antecessor, agora você consegue movimentar seus personagens em uma espécie de terreno disponibilizado a cada turno, em uma tentativa de deixar a batalha mais dinâmica. Assim, ao incrementar um lado tático às batalhas, bem aos moldes de Final Fantasy Tactics, o estúdio tinha esperança que o combate exigisse mais preparo do jogador, o que não acontece, infelizmente.

Apesar das adições e melhorias, não tive dificuldades em jogar no velho estilo, ataque, ataque, ataque. Com exceção das batalhas mais próximas ao final da história, poucas foram às vezes em que precisei realmente me posicionar para evitar algum ataque, ou até mesmo usar itens como de recuperação, reversão de status etc. Basicamente todas as lutas foram vencidas apenas me posicionando a frente do adversário e o atacando.

Facilidade também é encontrada nas outras partes que compõem a jogabilidade como um todo. No jogo, é possível construir itens e artefatos (espécie de poderes que você pode acoplar em determinados espaços de seu personagem) de maneira bastante intuitiva e simples. Os menus são práticos e bastantes didáticos para todo tipo de jogador. Isso poderia ser ótimo, no entanto, o uso destes itens é simples até demais. Nenhum deles é complexo a ponto de você ter que analisar qual compensa ser utilizado ou não. Basta ver se eles aumentam o poder do seu personagem, simples né?

Tanta simplicidade é interessante, mas frustrante ao mesmo tempo. Interessante porque é convidativa para jogadores pouco experientes com o gênero e frustrante porque, apesar de tentar apresentar camadas mais complexas, o uso de itens e artefatos pouco reflete nas batalhas. Como dito acima, o que importa é somente saber se aquele artefato novo é mais poderoso que o anterior. Se sim, troque. Se não, mantenha o seu.

Mas se falamos de South Park temos que falar das suas sátiras e, principalmente, críticas. E é exatamente quando pretende fazer uma crítica social que South Park – A Fenda que Abunda Força destila suas melhores piadas. Há confrontos com a pedofilia na igreja, a exploração de latinos nos Estados Unidos e até mesmo críticas sobre o comportamento do americano mediano, por exemplo. Grande parte delas são realizadas com um texto e um timing perfeito, que me arrancaram risos sem o mínimo esforço. No entanto, na contramão das boas piadas, o humor escatológico de South Park não funciona. Em vez de provocar sorrisos, estes momentos – como o lap dance misturado com peidos das crianças em cima de adultos em um clube de striptease – são apenas constrangedores e o que você mais quer na hora em que eles acontecem é que tudo termine logo.

Apesar disso, South Park – A Fenda que Abunda Força é excelente em conseguir construir todo o discurso em que se apoia dentro de um mundo de faz de conta. Em tudo o que aborda, o que ainda impera em todas as cenas é a inocência das crianças, que transformam todo o cenário de South Park em uma aventura que só a mente de uma criança poderia realmente criar.