Review | The End Of The F***ing World (Netflix)

Já maratonou todos os grandes lançamentos de séries dos últimos anos e está garimpando algo bom para lhe ocupar enquanto seu trabalho, estudos, família e vida social não o fazem? Pois então lhes apresento The End Of The F***ing World, produção britânica do Channel 4 (o mesmo que produziu as duas primeiras temporadas de Black Mirror) que o Reino Unido viu no fim do ano passado, e que a Netflix apresenta para o mundo todo agora no início de 2018.

A trama é bem simples: James é um rapaz absurdamente apático que acredita piamente ser um sociopata – fato que pretende consumar assim que matar alguém. Na busca pela sua vítima perfeita, seu caminho se cruza com o de Alyssa, uma garota irritantemente rebelde e revoltada, que parece encontrar na figura de James alguém em quem pode confiar, e até se apaixonar. Sem saber, é claro, dos planos maquiavélicos dele para com a garota. Assim, os dois decidem fugir juntos pelo mundo, uma vez que não se sentem parte do local onde estão inseridos.

Mas essa premissa simples e até bobinha vai te enganar perfeitamente se você se deixar levar apenas pelas aparências: o que prometia ser uma comédia romântica teen, aos moldes de algo que o Disney Channel faria, já fica o aviso de que não é isso o que você vai encontrar aqui.

Os oito episódios (cada um com cerca de apenas 20 minutos de duração) nos levam por uma montanha russa de sentimentos e experiências: desde o humor negro britânico, muito característico em produções do tipo (basta conferir também na Netflix o seriado Dirk Gently’s Holystic Detective Agency); o clima e ambientação cheios de situações que beiram o absurdo, que causam incomodo até; temas delicadíssimos como abuso infantil, morte, sexo, suicídio; uso de linguagem e temas adultos; além de uma trilha sonora muito boa e extremamente pontual.

[OFF TOPIC] Todos esses detalhes, aliás, me trouxeram à mente a criminosamente desconhecida série Utopia, também produzida pelo Channel 4 entre 2013-14, e que assim como a série que tratamos aqui, é baseada em outra HQ. Aliás, fica aqui uma nota mental: precisamos falar sobre Utopia e suas maravilhosas duas temporadas, que inclusive seriam “vitimas” de um remake norte-americano, capitaneado por David Fincher na HBO, mas que não teve andamento. Mas isso é assunto para outro dia…[OFF TOPIC]

O fato da série ter essa curta duração contribui com o andamento da mesma, que não sofre com aquela indesejada “barriga” que muitas séries mais longas costumam apresentar. E muito embora as coisas aconteçam na série e o roteiro caminhe, ela não se demonstra apressada em quase momento nenhum – talvez um pouco em seu final. Isso é um ponto positivo perante a geração de espectadores que se dispersa muito rapidamente.

Os personagens e situações são bem desenvolvidos nesse curto espaço de tempo – basta notar quão diferentes estão os personagens principais no primeiro e no último episódio. Tanto suas aparências quanto modos de agir, de pensar, suas preocupações (ou falta delas). Durante a jornada, esses dois garotos vão crescendo e se transformam de simples jovens que querem se ver fora do mundo, para mais duas pessoas que se tornam vitimas dos mais mundanos problemas.

E falando nos personagens, fica aqui o destaque positivo para a ótima seleção de elenco da série, em especial a dupla protagonista: Alex Lawtner (Jogo da Imitação) e Jessica Barden (The Lobster, Hanna) dão os tons necessariamente exagerados que seus personagens pedem: seja na apatia irritante de James, que parece enxergar o mundo como um grande vazio com o qual ele não se importa, seja na paixão por irritar todos ao seu redor e na aparente rebeldia de Alyssa. É bem complicado transitar nessa linha tênue entre o que é feito aqui e o overacting, que poderia tornar as coisas engraçadas – mas não da maneira desejada pela produção.

Todo o esmero técnico da série, que busca referências visuais em nomes como Wes Anderson e David Lynch, completa o pacote. Os episódios são muito bem dirigidos e cumprem bem a proposta da história – que conta ainda com um ótimo final aberto.

Ao fim dos oito episódios de The End Of The F***ing World nosso mundo não acaba – mas com certeza, embarcamos na derrocada do mundinho de James e Alyssa. E torcemos demais por eles, ainda que em alguns momentos a excentricidade da série seja um pouco incômoda e acabe afastando nossos olhos para perspectivas diferentes. A segunda temporada ainda é uma incógnita, tal qual era o que eu esperava no começo da jornada. Espero que se concretize, como foi o sentimento de satisfação ao fim dessa p*** de série. Ops.

Todos os episódios da primeira temporada de The End Of The F***ing World estão disponíveis na Netflix.