A primeira sessão do Cineclube Indaiatuba de 2026 xibiu Foi Apenas um Acidente, vencedor da Palma de Ouro de Cannes no ano passado e um dos principais concorrentes de O Agente Secreto no Oscar de Filme Internacional. Óbvio que este foi o principal atrativo do filme, que teve casa cheia. De cara digo que não deveria ser páreo para o longa de Kleber Mendonça Filho, embora guarde alguns pontos em comum, e não estou dizendo a cena de extorsão por parte de agentes policiais, nem haver uma perna envolvida na história. Muitos dos problemas se devem ao fato de ter sido filmado às escondidas, com um elenco que mistura atores profissionais com amadores. O premiado diretor Jafar Panahi (Táxi Teerã, 3 Faces) disse ter se inspirado em sua própria prisão pelo regime fundamentalista do Irã, e saiu fugido do País com o material bruto, para finalizá-lo na França, que indicou a obra como candidato a Filme Internacional. Mas, para mim, lembra muito Ação Entre Amigos (1998), de Beto Brandt, e, um pouco menos, A Morte e a Donzela (1994), de Roman Polanski, baseada numa peça de Ariel Dorfman. Mas vamos a Foi Apenas um Acidente propriamente dito.

Vahid (Vahid Mobasseri) trabalha numa granja quando um carro com uma família para em frente com problemas mecânicos. Enquanto o colega faz um reparo de emergência, Vahid reconhece o barulho da prótese da perna do motorista como sendo do homem que o torturou na prisão, Eghbal. Obcecado pela vingança, ele o segue e consegue capturá-lo, mas quando está prestes a executá-lo, a dúvida o impede.

Começa a partir daí uma peregrinação tragicômica em busca da confirmação, que passa pela fotógrafa Shiva (Mariam Ashfari), pela noiva Golrok (Hadis Pakbaten) e seu prometido (Majid Panahi) e o ex de Shiva, Hamid (Mohamed Ali Eslyamer), todos ex-prisioneiros do suposto Eghbal, que os mantinham vendados, daí a dúvida.

Para complicar a filha do sequestrado liga para o celular do pai dizendo que a mãe grávida desmaiou na cozinha, o que faz com que todo o grupo à bordo da van de trabalho de Vahid vá socorrer a mulher e leva-la a um hospital.

O roteiro que mistura horror da repressão do regime com o cotidiano da vida no Irã é interessante, porém, comprometido pela irregularidade do elenco e por algumas decisões questionáveis da direção. Mesmo assim, Foi Apenas m Acidente levou o grande prêmio em Cannes, enquanto O Agente Secreto ganhou Melhor Direção e Ator. Em termos técnicos, não dá para comparar com o esmero da obra de Kleber Mendonça Filho, mas o contexto em que Jafar Panahi realizou seu filme deve ter influenciado na decisão do júri, o que também é válido, já que cinema não é apenas estética, mas também política.

Cotado como grande favorito na época das indicações, a produção frnco-iraniana vem perdendo força ao longo da temporada de premiações, em que o longa brasileiro levou troféus importantes e, ultimamente, Valor Sentimental vem recuperando prestígio. Na terça, dia 10, finalmente poderemos conferir em Indaiatuba a cada vez mais aclamada obra de Joachin Trier e a atuação de Renate Reinsve, aparentemente a única capaz de tirar o Oscar de Jessie Bickley (Hamnet),

 

 

por Marcos Kimura

Marcos Kimura é jornalista cultural há 25 anos, mas aficionado de filmes e quadrinhos há muito mais tempo. Foi programador do Cineclube Oscarito, em São Paulo, e técnico de Cinema e Histórias em Quadrinhos na Oficina Cultural Oswald de Andrade, da Secretaria de Estado da Cultura. Programa o Cineclube Indaiatuba, que funciona no Topázio Cinemas do Shopping Jaraguá duas vezes por mês.

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