Já tendo visto alguns sérios candidatos ao Oscar – Pecadores, Uma Batalha Após a Outra e O Agente Secreto – para mim, Hamnet é o mais belo. E sem ter visto as demais candidatas a Melhor Atriz, já digo que o prêmio da Academia deveria ser de Jessie Buckley.

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, é baseado em um livro de Maggie O’Farrell, co-roteirista do filme junto com a diretora Chloè Zhao (Nomadland), que por sua vez se inspira em alguns dos poucos fatos que sabemos a respeito da vida pessoal de William Shakespeare, interpretado por Paul Mescal, de Aftersun e Gladiador 2. Sabemos que sua esposa se chamava Anne Hatthaway (sim, xará da atriz famosa) na maioria dos documentos, exceto um, o testamento de seu próprio pai, onde é grafado como Agnes, e foi esta a opção da autora. Vivida pela extraordinária Jessie Buckley, indicada ao Oscar de Coadjuvante por A Filha Perdida), ela surge na história quase como uma ninfa ou fada tirada de Sonhos de Uma Noite de Verão, um ser interligado com a natureza, que se conecta mais à floresta e ao seu falcão do que à pessoas ao redor. Até que conhece Will, filho de um luveiro, que se torna tutor de latim dos meio-irmãos de Agnes, e os dois se entregam a uma paixão arrebatadora.

Essa conexão com a natureza faz com que ela seja meio bruxa e receba presságios do que ainda vai acontecer. O problema é a interpretação dos sinais, como acontece em Macbeth. Para superar a contrariedade das famílias que não se dão bem, menos que os Montecchio e os Capuletto (há literalmente uma citação de Romeu e Julieta durante o namoro), ela engravida para que eles sejam obrigados a se casar, como seria o costume no Ocidente até o século XX. Agnes da à luz a Julia, e a vida de mãe e esposa faz com que ela aos poucos se afaste da relação com a floresta e a natureza. Enquanto isso, Will sofre com o dilema entre sua imaginação em ebulição e seguir o tedioso ofício de seu pai, e a esposa acaba incentivando-o a ir para Londres, onde as coisas acontecem.

Ela engravida e dá à luz aos gêmeos Judith e Hamnet – o personagem título interpretado de forma encantadora pelo garoto Jacobi Jupe – em uma sequencia de parto linda, em que Buckley é coadjuvada pela sogra vivida pela sempre ótima Emily Watson (de Duna: A Profecia).

As crianças crescem e a vida familiar prospera, mesmo com o pai vivendo longe e fazendo visitas ocasionais. Hamnet, o único filho homem, acabe sendo o favorito de Will, com quem compartilha a imaginação de lutas heroicas e o sonho de um dia subir ao palco.

A saúde de Judith, a gêmea que quase morreu no parto, é a desculpa de Agnes para continuar na província, mas na realidade ela não que se afastar de suas raízes. E é justamente a garota que é acometida por uma das muitas pestes que assolavam a Europa. Desesperado, Hamnet quer usar uma brincadeira dos gêmeos para enganar a morte e, de fato, ele é que morre enquanto a irmã de recupera. Em outro momento de Oscar para Jessie Buckley, a dor pela perda do filho faz com que ela culpe principalmente o marido por não estr presente, e este se recolhe em seu luto pessoal e acaba se afastando mais da família.

Anos depois, Agnes fica sabendo que Will escreveu uma peça com o nome do filho, Hamlet, que pode ser considerado uma corruptela. Indignada, ela vai até Londres na companhia do irmão Bartholomew (Joe Alwyn, de O Brutalista) para ver a estreia da peça.

O fato de Shakespeare ter perdido um filho de nome Hamnet e que depois da tragédia, sua obra ficou mais sombria, é uma das poucas coisas que sabemos de sua vida pessoal. E aí a escritora e roteirista Maggie O’Farrrell faz o fio do luto do autor com sua obra-prima, costurado com maestria pela diretora Chloé Zhao. O ator que faz o príncipe da Dinamarca é interpretado pelo jovem Noah Jupe, irmão de Jacobi, que fez Hamnet, e a semelhança dos dois, assombra tanto Agnes quanto o público no cinema. Também a aparição de Will fazendo o papel do fantasma do pai de Hamlet também reforça o paralelo entre o horror da morte do filho com a que é contada no palco.

O roteiro tem momentos “leia a bula”, como o fato do monólogo mais famoso do teatro ocidental, “ser ou não ser”, ser dito duas vezes, ou as reações de Agnes durante a peça estabelecendo o parelho entre vida e arte. Mas nada ofusca o clímax do filme e as derradeiras palavras de Hamlet, “o resto é silêncio”. Lágrimas e palmas para Hamnet, poderoso candidato ao Oscar.

por Marcos Kimura

Marcos Kimura é jornalista cultural há 25 anos, mas aficionado de filmes e quadrinhos há muito mais tempo. Foi programador do Cineclube Oscarito, em São Paulo, e técnico de Cinema e Histórias em Quadrinhos na Oficina Cultural Oswald de Andrade, da Secretaria de Estado da Cultura. Programa o Cineclube Indaiatuba, que funciona no Topázio Cinemas do Shopping Jaraguá duas vezes por mês.

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