Saindo da sessão de Marty Supreme, a quase certeza que eu tinha antes que Timothée Chalamet era a barbada do Oscar sumiu e passei a considerar as chances de Wagner Moura de fato concretas.
Por que a atuação do menino prodígio de Hollywood é ruim? Nem de longe, mas o momento dos EUA está mais próximo de O Agente Secreto, Uma Batalha Após a Outra e até Pecadores do que a egotrip do mesatenista que passa por cima de tudo e todos em busca de seu sonho de grandeza, que remete muito à própria jornada do ator que o interpreta.
O crítico PH Santos tem uma leitura interessante de Marty Supreme como uma alegoria do próprio EUA atropelando outras nações, acordos e tratados em prol de sua própria grandeza.
Interessante, mas com a qual não concordo. Acho que é um personagem e roteiro criados em função de obter o Oscar a seu protagonista. Um Maestro melhor escrito e dirigido.
Marty Mauser (Chalamet) é um jovem mesateinista que, na Nova York dos anos 1950, vende sapatos na loja do tio para juntar e para competir em um torneio internacional na Inglaterra.
Ao mesmo tempo transa com uma namorada de infância, Rachel, atualmente casada – papel da a novata Odessa A’zion, que andam especulando como possível nova Mulher-Maravilha (muita calma nessa hora).
Como todo vigarista, ele é ótimo vencedor, e o tio não quer perdê-lo para essa tolice de pingue-pongue, e acaba deixando-o sem dinheiro para viajar. Mas não será um comerciante de sapatos que vai impedí-lo de realizar seus objetivos.
Em Londres, ele exige ser hospedado no Ritz (para quem não sabe, na época era referência em hotelaria de luxo) e resolve seduzir uma antiga estrela de Hollywood, Kay Stone (uma Gwyneth Paltrow saída da aposentadoria) só para provar que pode.
Mas quando ele se depara com um rival japonês, deficiente auditivo e que usa uma raquete revolucionária (possivelmente uma referência à Butterfly, desenvolvida no Japão) seus sonhos de grandeza desabam.
Mas, como Joseph Climber, ele não é de desistir, e mesmo com o risco de ser preso por causa do golpe no tio, de uma multa impagável aplicada pela Federação Internacional e a gravidez de Rachel, ele planeja um retorno triunfal, desta vez no Mundial no Japão.

Tour de Force
Se a primeira hora é alucinante, o resto da trama se torna repetitiva, com um esquema após o outro cada vez mais cansativo. Obviamente, o roteiro entrega um final redentor, mas… sério?
O tour de force de Chamalet faz dos demais personagens acessórios, mesmo Rachel, que tem mais tempo de tela.
O diretor Josh Safdie (em seu primeiro voo solo sem o irmão Benny, com quem fez Joias Brutas) montou um elenco que reúne atores inusitados, como a já citada Gwyneth.
Fran Dresher (a eterna The Nanny, que também foi presidente do Sindicato dos Atores durante a recente greve), como a mãe judia; o diretor italiano Abel Ferrara como o gangster que ama seu cão; e também não-atores, como o participante do Shark Tank Kevin O’Leary como Milton Rockwell, magnata do ramo de canetas e marido da personagem de Paltrow; e o mesatenista Koto Kawaguchi, que faz a nêmesis de Marty, Koto Endo, e por aí vai.
Minha esperança enquanto torcida para Wagner Moura é que os votantes percebam que Marty Supreme não trata de assunto relevante a não ser o próprio personagem errático e seu intérprete e não caia no hype autofabricado.
Chalamet talvez merecesse mais o Oscar por seu Bob Dylan de Um Completo Desconhecido, em que sua persona desaparece. Em Marty Supreme, vemos um ator talentoso desesperado por validação.