Ao contrário do ano passado, quando a competição se resumiu entre Ainda Estou Aqui e o péssimo Emilia Perez, este ano a corrida para o Oscar de Filme Internacional está muito mais acirrada. O Agente Secreto tem a concorrência de Foi Apenas um Acidente, de que já falamos, e Valor Sentimental. O páreo é duríssimo em relação ao filme de Joachin Trier.
Nora (Renate Reinsve, de A Pior Pessoa do Mundo, do mesmo Trier) é uma atriz norueguesa de relativo sucesso em seu país. Seu pai, Gustav (Stellan Sakarsgard, de tantos papéis hollywoodianos, como Duna, Os Homens que não amavam as mulheres etc) é um cineasta respeitado internacionalmente, mas que não filma há 15 anos. Ele se divorciou de Sissel há muitos anos, praticamente abandonando Nora e sua irmã Agnes (Inga Ibsdotter Lileaas, que morou no Brasil e fala português), que já atuou para o pai e hoje é historiadora.
A mãe das moças morre, e durante o velório, Gustav aparece e pede para falar com Nora. Ele escreveu um roteiro para que a filha protagonize, mas esta, com muita mágoa acumulada, se nega, sem sequer ler o texto. Frustrado, o diretor vai a uma retrospectiva de sua obra, e lá, a estrela hollywoodiana Rachel Kemo (Elle Fanning) vai às lágrimas com seu último filme e o convida para jantar com sua entourage. Desse encontro, lindamente filmado, em que Gustav usa todo seu charme, resulta na entrada da atriz americana no projeto, e tudo que isso implica: dinheiro, sim, mas com suas contrapartidas.
Gustav e Rachel chegam à casa da família, que será usada como locação, justamente quando as filhas estão arrumando os pertences da mãe. Nora sai em fuga desesperada para não encontrar o pai, mas depois fica sabendo que a estrela ianque vai ficar com o papel que, segundo o pai, foi escrito para ela.
Nora é uma mulher ferida emocionalmente que nunca se recuperou da ausência do pai. Ela usa esse descompasso para sua atuação, como fica claro já na abertura do filme, quando ela está prestes a entrar em cena, e mais adiante, em que a montagem cola uma decepção amorosa com uma atuação.
Agnes era uma criança quando os pais se separaram, e teve um momento de ligação com o pai quando atuou para ele ainda criança em seu último filme, passado durante a ocupação nazista na Noruega, quando sua avó e mãe de Gustav foi presa e torturada.
A pobre Rachel cai de paraquedas nessa complexa tapeçaria de relações familiares – representada pela casa, praticamente um personagem da trama – tentando de todas as formas não decepcionar o diretor que tanto admira, mas quando se dá conta que está sendo dublê de Nora, entrega os pontos.
Em relação ao Oscar, este é, facilmente um dos melhores filmes, e num mundo ideal, poderia levar o grande prêmio da Academia, que já parece destinado a Uma Batalha Após a Outra. Assim como O Agente Secreto, a obra de Paul Thomas Anderson ecoa no momento político dos EUA, e isso tem um peso gigante, como ficou claro na apresentação de Bad Bunny no Superbowl. Valor Sentimental lembra alguns dos grandes momentos de Ingmar Bergman, que por sua vez já vinha de uma sólida tradição escandinava de cinema. É como Tar, de longe o melhor filme daquela temporada do Oscar, mas que perdeu para Tudo em todo o lugar ao mesmo tempo por conta do zeitgeist. Mas ainda prevejo páreo duro em Filme Internacional.
Stellan Skarsgard merece e deve lavar o Oscar de Ator Coadjuvante; Inga Ibsdotter Lileaas é a melhor atriz coadjuvante, mas deve perder para Teyona Taylor (que tem uma atuação notável, mas com uma pegada mais visceral, menos técnica) e Elle Faning já deve estar feliz com sua primeira indicação, num papel corajoso com elementos de sua própria carreira.
Aí temos Renate Reinsve como Atriz. Ainda acho Jessie Buckley em Hamnet superior pela epifania que oferece, mas o que a norueguesa entrega é incrível. São atuações em chaves distintas, embora, curiosamente, os temas dos dois filmes sejam parecidos, como a arte surge a partir da vida e, por vezes, ajuda a reconciliar perdas e dores que lhe deram origem. Ambos os filmes são obrigatórios.