Sonhos de Trem, da Netflix, recebeu quatro indicações ao Oscar, inclusive de Fotografia, assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso, mas também Filme, Roteiro Adaptado e Trilha Sonora. É baseado no livro de Denis Johnson, dirigido por Clint Bentley (um dos roteiristas de Sing Sing) e estrelado por Joel Edgerton (de O Grande Gatsby), como Robert Grainer, um lenhador que vive nas florestas dos EUA entre os séculos XIX e XX.

A história narra uma vida comum e solitária que cruza com a de outras pessoas, interpretadas por atores importantes como Felicity Jones (duas vezes indicada ao Oscar por A Teoria de Tudo e O Brutalista), William H. Macy (uma indicação de Coadjuvante por Fargo) e Kerry Condon (indicada como Coadjuvante por Os Banshees de Inisherin). A fotografia de Veloso valorizando a luz natural é, de fato, um destaque da produção, assim como a trila musical de Bryce Dessner.

Um dos adjetivos mais usados para qualificar Sonhos de Trem é “lindo”, o que de fato é. Remete a outro lançamento da temporada, A Vida de Chuck, também abordando a beleza e tragédia de uma vida ordinária. Edgerton, um ator que em geral não gosto muito, está muito bem no papel, e foi indicado ao Globo de Ouro e o Critic’s Choice Award. Não vou me detalhar na história, porque grande parte da graça do filme é usufruir da narrativa e acontecimentos.

O Grainer de Edgerton testemunha acontecimentos pequenos que revelam a América ao longo do tempo, da xenofobia aos chineses – que chegaram em massa para trabalhar nas ferrovias após a Guerra Civil – a terra sem lei do interior do país até o mundo tecnológico entre as duas guerras mundiais, em que as pessoas podiam voar mediante alguns trocados. As participações são marcantes, Felicity como a esposa em o protagonista quem encontra um porto seguro; Macy como um colega mais vivido e igualmente sozinho; e Kerry como uma mulher de uma era mais moderna, vislumbrando independência e ativismo ambiental avant la letre.

Curto, bem filmado, conduzido e interpretado, é uma escolha segura para um entretenimento de qualidade, reflexivo e até com uma certa profundidade. Mas, na disputa do Oscar de Melhor Filme, era um dos que tinham menos chance, junto com F1 e Bugonia. O que não o desqualifica em nada, e mostra que a safra deste ano foi muito boa.

 

por Marcos Kimura

Marcos Kimura é jornalista cultural há 25 anos, mas aficionado de filmes e quadrinhos há muito mais tempo. Foi programador do Cineclube Oscarito, em São Paulo, e técnico de Cinema e Histórias em Quadrinhos na Oficina Cultural Oswald de Andrade, da Secretaria de Estado da Cultura. Programa o Cineclube Indaiatuba, que funciona no Topázio Cinemas do Shopping Jaraguá duas vezes por mês.

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