O hyppe em torno de Pluribus foi ofuscado pelo evento Stranger Things no final do ano, mas o prêmio de Melhor Atriz em Série de Drama no Critic’s Choice Awards concedido a Rhea Seehorn ajudou a reviver a série. É um dos bons motivos para assinar a Apple TV+, que se destaca principalmente por suas séries de sci-fi, como é o caso desta criação do mesmo Vince Gilligan, de Breaking Bad e Better Call Saul.

Tudo começa quando um sinal vindo do espaço é captado por um radiotelescópio, e logo a comunidade científica percebe que se trata de uma mensagem vinda de uma inteligência alienígena. Trata-se de uma sequencia de DNA, que será decifrada e reproduzida em laboratórios de alta segurança. Uma série de acidentes fará com que ele escape e contamine  os humanos, primeiro por contato involuntário, mas rapidamente propositalmente. O vírus faz com que os intectados façam parte de uma consciência coletiva, em que as pessoas vivem em harmonia, se recusem a matar outros seres vivos mesmo para se alimentarem, embora sem individualidade. À exceção de alguns poucos imunes, como Carol Sturka (Rhea Seahorn, de Better Call Saul).

Ela é uma escritora de romances frustrada que vive na estrada em tours de divulgação de seus livros, ao lado da esposa e agente Helen (Mirian Shor, de Younger). Quando elas estão prestes a voltar para sua confortável casa em Albuquerque, um avião passa sobre elas lançando o vírus extraterrestre. Helen é infectada, mas Carol, não. O problema é que nem todo organismo contaminado aceita o vírus, e a escritora acaba carregando o cadáver da parceira para casa, sem ainda entender o que está acontecendo.

A coletividade entra em contato com ela na forma da bela Zosia (Karolina Wydra, que trabalhou em Agentes da S.H.I.E.L.D.), enviada com a intenção de cooptá-la  Carol acaba convocando os outros imunes, e percebe que só ela se incomoda com a situação. Aliás, um deles, Diabelé (cujo intérprete tem o sugestivo nome de Samba Shutte), que mais do que conformado, tira todas as vantagens possíveis da situação, vivendo como um bilionário, mantendo um harém de beldades e realizando as fantasias mais excêntricas – como um jogo de cartas no melhor estilo 007.

Mas um dos não-infectados não comparece ao encontro e vive isolado no Paraguai, recusando a ajuda e contato da coletividade. Mangusos (Carlos-Manuel Vesga) só deixa seu refúgio quando é contatado por Carol, que o convida a encontrá-la na Califórnia. A viagem que ele realiza pelas Américas, primeiro de carro, e depois a pé, ilustra a teimosia do personagem, e quando ele finalmente encontra a escritora, os dois se decepcionam.

A série contrapõe o individualismo irredutível de Carol à aparente vida pacífica e sem confrontos dos que se integram à consciência coletiva. Mesmo quando ela descobre que a vida pacífica e vegana leva essa sociedade a um impasse, isso na verdade não parece fazer muita diferença.

As referências cinematográficas são várias, especialmente Invasores de Corpos, a refilmagem de Vampiros de Almas (1956) feita por Philip Kauffman em 1978. Tem momentos de No Mundo de 2020, de 1973, que encerrou uma série de filmes de sci-fi estrelado por Charlton Heston (os outros sendo O Planeta dos Macacos e A Última Esperança da Terra), A Aldeia dos Amaldiçoados (1960), mas o que torna Pluribus mais interessante é como ele dialoga com questões contemporâneas, como uma uniformidade de pensamento imposta tanto pela agenda woke, quanto pelas mídias sociais. Mas Carol não é a mocinha da história, cometendo diversos atos horríveis em nome de suas convicções, chegando, no final, a uma declaração de guerra.

A série é ótima, mas vai demorar a voltar, como é moda hoje em dia.

 

por Marcos Kimura

Marcos Kimura é jornalista cultural há 25 anos, mas aficionado de filmes e quadrinhos há muito mais tempo. Foi programador do Cineclube Oscarito, em São Paulo, e técnico de Cinema e Histórias em Quadrinhos na Oficina Cultural Oswald de Andrade, da Secretaria de Estado da Cultura. Programa o Cineclube Indaiatuba, que funciona no Topázio Cinemas do Shopping Jaraguá duas vezes por mês.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *