Não há como negar: o final de Stranger Things é o grande acontecimento da cultura pop do final de 2025, ofuscando Avatar: Fogo e Cinzas (que já ultrapassou o bilhão de dólares de bilheteria); o show da Virada da Globo (aconteceu?); queima de fogos de Copacabana ou qualquer outra coisa. Para o bem e para o mal.
O bem é que os irmãos Duffer conseguiram levar a enorme base de fãs de Hawkins às lágrimas em não uma, mas em várias sequencias. O mal são os defeitos caçados por críticos de mídia social e mesmo alguns profissionais – como do Estadão e Veja – que acusaram os showrunners de covardia por produzirem um final confortável em que ninguém importante morre, dependendo da interpretação.
Para começar, Stranger Things não aspira aser uma obra de arte, e sim um bom entretenimento, capaz de engajar milhões de fãs pelo planeta, que abriram mão do réveillon com amigos, família ou em evento, para ver como a aventura que quase 10 anos terminaria. E alguém pode dizer que acabou mal, ainda mais se lembrarmos como foram os finais de Lost e Game of Thrones, duas das melhores e mais populares séries deste século.
E vamos à crítica, obviamente com spoilers, já que, quem ainda não viu, devia estar num retiro ou num cruzeiro, onde a internet é paga e cara.
O Volume 2 começa com a descoberta de último minuto do Volume 1: Will (Noah Schnapp) tem a capacidade de entrar na Mente Coletiva e matar os demogorgons. Com isso, ele salva os amigos mas não consegue resgatar as crianças escolhidas para serem os receptáculos de Vecna, Esse negócios de necessitar de 12 fedelhos cujas mentes ficam presas numa casa de delícias, em que podem ver TV {a vontade, comer as guloseimas queiserem e brincarem sem supervisão é uma versão da ilha dos prazeres de Pinóquio (em que as crianças sem estudo viram jumentos que serão explorados como animais de carga) ou casa de doces de João e Maria (em que ambos serão cevados como gado de abate). Os únicos que sabme a verdade é Holly (Nell Fisher) e Derek (Jake Connelly ), e com Max (Sadie Sink) criarão um plano para tirar todos de Camazot, as memórias de Henry/Vecna (Jamie Campbell-Bower).
No Mundo Invertido, El (Millie Bobbi Brown), Hoper (David Harbour) e Kali (Linne Berthelsen) escapam do laboratório militar e vão ao ponto de encontro com Dustin (Gaten Matarazzo), Nancy (Natalia Dyer), Steve (Joe Kerry) e Jonathan (Charlie Heaton) mas eles não estão lá. Eles foram à versão do laboratório onde tudo começou em busca de um suposto gerador do campo que cerca o Mundo Invertido.
A função dessa exploração é mais resolver os problemas entre Steve e Dustin, o bromance favorito da série, e dos namorados relutantes Nancy e Jonathan. O casal, inclusive, tem uma DR numa sequência que remete a Rose e Jack na tábua de Titanic, sem que qualquer um dos dois tenha que morrer. Dustin revela o trauma da morte de Eddie e que não poderia suportar a perda de Steve. O subproduto, é a descoberta das anotações do doutor Brenner e a confirmação de que o Mundo Invertido é um Buraco de Minhoca criado pelo laboratório de Hawkins entre este mundo e uma dimensão sombria, de onde vem o Devorador de Mentes e o demogorgons. E antes do epílogo, apesar da urgência, temos tempo para que Will saia do armário perante seus amigos, uma cena que vinha sendo preparda dese a primeira temporada, e qu naõ é ampenas comovente, mas tganha função na trama, já que ele ganha autoconfiança para enfrentgar Vecna uma última vez.
Na verdade, nesta quinta temporada, e especialmente no longo episódio final, toda a narrativa está a serviço dos momentos catárticos, e para isso, não importa a urgência da situa suspensão de credibilidade (da qual já abrimos mão faz tempo) ou mesmo a satisfação em relação a personagens secundários, como Vick (a namorada de Robin esquecida no churrasco), Murray ou mesmo a ótima Erika: o que importa são os cinco protagonistas originalmente crianças Eleven, Mike (Finn Wolfhard), Dustin, Will, Lucas (Caleb MacLaughlin) e Max; o casal Joyce (Winona Ryder, de longe a mais bem paga do elenco) e Hopper e os quatro adolescentes/adultos. Ainda assim, os quase figurantes Karen Wheelee (Cara Buono, sempre em destaque nos créditos) e o pai dos nerds, professor Clarke (Randy Havens) tem seus momentos de brilho.

São esses momentos cuidadosamente construídos que gerou a comoção mundial, e as reações nas salas de cinema que exibiram o episódio derradeiro (cujas bilheterias ficaram para os exibidores) foram um verdadeiro amplificador para as mídias sociais. A contagem regressiva para explodir o Mundo Invertido foi o Lado B do LP Purple Rain, começando com a belíssima When Doves Cry e terminando, exatamente quando Eleve fan relembra com Will todos os momento que viveram juntos, com a faixa título, que parece ter sido descoberta pela geração Z neste exato momento. Pausa para um parênteses. Se tivesse vivido nos s´culos XVIII ou XIX, Prince Rogers Nelson seria um Mozart, Liszt ou Chopin, um compositor, multiinstrumentista e performer, a quem no século XX restou ser um popstar. Morreu cedo, exatemente no ano em que Stranger Things foi lançado. Fecha aspas.
A batalha final, táo criticada por tantos, era praticamente um detalhe, ainda que tanha consumido muitos dólares em CGI, tinha como missão mostrar todos trabalhando juntos parta derrotar o vilão, com a cereja do bolo da mãezona decapitando Vecna (Jamie Campbell Bower) com toda a raiva acumulada por anos de sofrimento causado por ele. Foi quase um orgasmo.
Mas o melhor estava reservado para a coda, dezoito meses depois quando a poeira abaixou, as crianças se formam no High School, os jovens adultos partem para a vida de boletos (sendo que todo mundo sabe que o tal reencontro não acontecerá, pelo menos, não todo mês) e os já gastos Hopper e Joyce resolvem se casar e deixar Hawkins. O adeus de Nancy, Jonathan, Steve e Robin no alto do telhado, que é uma referência a Caindo na Real, longa de 1994 estrelado por Winona Ryder e Ethan Hawke, pai de Maya, a Robin.

Agora, o que pegou todo mundo é o jogo final de D&D no porão dos Wheeler, onde tudo começou em 2016 e onde tudo acaba. Com Will se revelando um futuro escritor, novamente a inspiração em Conta Comigo vem à tona. Se há uma comparação possível é com a saga Harry Potter, cujos personagens cresceram com seu público, e cada tragédia ou alegria era vivida pelos espectadores como se fosse com alguém próximo. E Matt e Ross Duffer, sabendo disso, gravaram por ultimo essa cena tocante, em que cada herói colocava seu livro na prateleira, num adeus dos atores aos personagens com os quais atravessaram a infância e adolescência.
E temos o elefante na sala, que é a morte ou não de Eleven. Para que essa dúvida fosse criada, era fundamental trazer de volta Kali, não apenas pelo seu poder de criar ilusões, mas por ter testemunhado as intenções da doutora Kay, uma Linda Hamilton que estava lá mais para ser um easter-egg ambulante que um personagem na trama. Os Duffer já disseram que, embora não vissem um final em que a menina super-poderosa terminasse com seus amigos, também achavam que ela representava a magia da infância, e simplesmente matá-la seria triste demais. Concordo com a solução, mesmo que diversos chatos os acusem de covardia (Só para ilustrar, se o final de Pretty Woman fosse o planejado, com Julia Roberts morrendo na rua de overdose, será que o filme serie um clássico?)
No fim de tudo, faço votos para que os talentosos Nell Fischer – a Holly, que ganhou tempo de tela fora do comum – e Jake Connelly – o desbocado Derek, que ganhou espaço graças a seu talento – tenham uma carreira daqui para a frente, à exemplo de Joseph Quinn, que virou astro depois de apenas uma temporada como Eddie Munson.