Sherlock Holmes é um dos personagens mais famosos da ficção ocidental, talvez possamos dizer até que ele foi o equivalente ao Superman na virada dos séculos XIX e XX. Daí que ganhamos o Smallville do detetive de Arthur Conan Doyle com a série Jovem Sherlock.

Assinado por Guy Ritchie – que dirigiu dois longas com Robert Downey Jr. como Holmes e Jude Law como Watson – a série de oito episódios aborda um tempo em que o protagonista ainda não descobriu sua vocação, e acaba virando amigo de James Moriarty (Donál Finn, da série A Roda do Tempo), o equivalente a Lex Luthor no cânone de Conan Doyle.

Sherlock Holmes (Hero Fiennes Tiffin, da trilogia After) é um jovem da alta classe que usa seus talentos para cometer furtos e golpes apenas para mostrar que é capaz. Ele é tirado da ultima prisão pelo irmão Mycroft (Max Irons, da série Condor), funcionário do Ministério das Relações Exteriores, que o leva para Oxford, mas não como estudante, e sim, como servente. Ele acaba sendo identificado por Mycroft, um estudante bolsista, como um igual intelectualmente.

Ao mesmo tempo, a carruagem da princesa chinesa Shou’An (Zine Tseng, de O Problema dos Três Corpos) é atacada por ladrões, que roubam sua cópia de Arte da Guerra, mas é logo recuperada pela moça, que se revela uma artista marcial, para surpresa de ninguém.

A Universidade de Oxford é o centro de uma pesquisa envolvendo um grupo de cientistas que desenvolvem um projeto liderado pelo magnata Bucephalus Hodges (o vencedor do Oscar Colin Firth). Logo, uma série de eventos faz de Holmes um suspeito. Ele e Mycroft acabam ligando os crimes à Shou’an.

Não vou dar – muitos – spoilers, mas a série tem aquele ritmo Guy Ritchie e diversas reviravoltas, especialmente do meio para frente, quando a ação deixa a modorrenta Inglaterra vitoriana e vai para cenários bem mais movimentados, como a Paris das últimas barricadas (1871) e a exótica Constantinopla do Impeério Bizantino  Para um habituée de séries e filmes, os turning points acabam sendo previsíveis, mas proporcionam muito entretenimento.

Além de Firth, outros nomes de prestígio estão no elenco, como Natascha McElhone (da série Halo) como Cordelia, mãe dos Holmes; e Joseph Fiennes (que já foi o Shakespeare de Shakespeare Apaixonado e hoje é mais conhecido como o vilão de O Conto da Aia), como o patriarca da família, Silas.

Em 1980, Steven Sipelberg produziu, Chris Columbus, dos dois primeiros Harry Potter, escreveu, e Barry Livinson, de Rain Man, dirigiu O Enigma da Pirâmide, que tinha como protagonista um Sherlock Holmes ainda mais jovem, em que ele faz amizade com um também jovem Watson e conhece o futuro Moriarty (spoiler para um filme de quase 50 anos…). As referências da produção, além dos livros, eram os filmes com Basil Rathbone, que hoje ninguém lembra.

Ritchie trabalha com o personagem após sua própria versão nos cinemas de quase duas décadas atrás, a que colocou Benedict Cumberbath no mapa, além de outras menos famosas, como o da série Elementary, com Johnny Lee Miller, e o dos filmes Enola Holmes, com o queixo de bundinha de Henry Cavill.

Como consequencia, Holmes virou um galã bem distante da imagem das ilustrações dos romances e do próprio Rathbone (que sempre fazia o vilão nas superproduções de Hollywood). Mais interessante é o jovem Moriarty de Donál Finn: Sabendo de antemão que ele se tornará uma mente maligna (se você}e não sabe disso a respeito de m personagem dos século XIX, sorry), ele vai dando sinais de psicopatia mesmo mantendo-se fiel ao amigo Sherlock.

O bom final – com direito a easter egg a um dos momentos mais chocantes dos livros de Conan Doyle – dá um gancho para uma provável segunda temporada, a julgar pelos menos dos espectadores brasileiro, que colocaram Jovem Sherlock no primeiro lugar do Prime Video.

por Marcos Kimura

Marcos Kimura é jornalista cultural há 25 anos, mas aficionado de filmes e quadrinhos há muito mais tempo. Foi programador do Cineclube Oscarito, em São Paulo, e técnico de Cinema e Histórias em Quadrinhos na Oficina Cultural Oswald de Andrade, da Secretaria de Estado da Cultura. Programa o Cineclube Indaiatuba, que funciona no Topázio Cinemas do Shopping Jaraguá duas vezes por mês.

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