Paul Thomas Anderson com elenco e equipe de Uma Batalha após a Outra, grande vencedor do Oscar

O lead a respeito da cerimônia do Oscar neste domingo, dia 15, é obvio: Brasil não leva nada. Mas para perder os cinco prêmios aos quais concorríamos, tínhamos que participar, ou seja, sermos indicados, e isso é o mais importante. Mesmo continuando sendo uma ação entre amigos americanos, a visibilidade que a tal Academia de Hollywood dá é muito importante para a indústria cinematográfica brasileira, tanto internamente, como ficou evidente pelo hype despertado na mídia nacional; quanto externamente, criando oportunidades de mercado para filmes e profissionais. Dito isso, vamos à premiação em si.

Ao longo da noite, foi ficando claro que a disputa de Filme estava entre Uma Batalha Após a Outra e Pecadores (não tínhamos chance aí), com Frankenstein dominando as categorias ditas técnicas (Figurino, Cabelo e Maquiagem e Design de Produção) e Guerreiras do K-Pop confirmando o amplo favoritismo em Longa de Animação e Canção Original com Gold, a nova Let it go.

Paul Thomas Anderson foi finalmente consagrado com os Oscars de Filme, Direção e Roteiro Adaptado, com a produção levando ainda Edição (Andy Jurgensen) e a novidade, Elenco (Cassandra Kukukundis), superando nosso Gabriel Domingues, que concorreu por O Agente Secreto. Ryan Coogler ganhou em Roteiro Original e seu longa recebeu ainda os prêmios de Fotografia (com uma mulher, Autumm Durald Arkapaw, vencendo na categoria pela primeira vez e batendo nosso Adolpho Veloso, por Sonhos de Trem) e Trilha Sonora Original, assinada por Ludwig Göransson. A despeito da estatura de PTA e de seu ótimo trabalho em Uma Batalha Após a Outra, o tabu de nenhum diretor preto jamais ter ganhado um Oscar permanece.

Em compensação, Michael B. Jordan se tornou o quarto ator afrodescendente a vencer com ator/atriz principal. Antes dele, foram apenas Sidney Poitier, em 1964; Denzel Washington e Halle Berry em 2001 levaram a estatueta com lead man ou woman. Sua atuação é tão boa quanto a de Wagner Moura? Acho que não, mas seu carisma é inegável, e ia ser uma sacanagem Pecadores não levar um dos prêmios principais depois de todo o hype.

Jessie Buckley apenas confirmou o que todo mundo já sabia e ganhou como Melhor Atriz pelo maravilhoso Hamnet. Amy Madigan levou como Atriz Coadjuvante por A Hora do Mal, batendo Teyana Taylor, minha favorita, em Uma Batalha Após a Outra; e Yunmi Mosaku, por Pecadores. O prêmio de Ator Coadjuvante foi para Sean Penn, por Uma Batalha Após a Outra, que não compareceu, fazendo com que ele seja um dos poucos intérpretes a ter três estatuetas (antes ele ganhou por Sobre Meninos e Lobos, em 2004; e Milk, em 2009). Ele está fantástico como o Coronel Lockjaw, mas Stellan Skarsgard também está um espetáculo em Valor Sentimental.

O que nos leva ao Oscar de Filme Internacional. O filme de Joachim Trier é bom? È sensacional, mas andava meio esquecido nas premiações anteriores (à exceção do Bafta inglês, que só premia europeus) e subiu na cotação da Academia às vésperas da premiação, para nossa tristeza. Curiosamente, é o único entre os cinco indicados – O Agente Secreto, Foi Apenas um Acidente, A Voz de Hind Rajab e Sirât – que não tinha um pano de fundo político-social e o único que se passa na Europa, apesar de Foi Apenas um Acidente concorrer pela França mas se passa no Irã, e Sirât teve partes feitas na Espanha, mas como sendo Marrocos.

E teve o In Memoriam. Alguns mortos são, de fato, mais memoráveis que os outros, como ficou demonstrado na longa homenagem a Rob Reiner conduzida pelo amigo Billy Cristal;  Barbra Streisand lembrando Robert Redford (e antando Memories ao vivo, coisa que suspeito que não faz há muto tempo) e Diane Keaton, celebrada por Rachel McAdams. Foram esquecidos no rolê Eric Dane, de Grey’s Anatomy; James Van Der Beek, o Dawson do riacho; e Brigitte Bardot. Pausa. Tudo bem que BB terminou a vida como reacionária e preferindo os bichos a pessoas (considerando como ela foi tratada pelos homens ao longo da carreira, não é de se admirar). Mas Hollywood esquecer aquela que chegou a ser uma importante pauta de exportação da França para os EUA; que habitou os sonhos masculinos de todo o planeta e mostrou às mulheres que era possível ser livre e dona no seu próprio corpo e destino, é uma indignidade.

E o que foi a apresentação de Conan O’Brien e o roteiro do show? Piadas sem graça, medrosas (evitaram ao máximo se referir a Trump) e um tédio absurdo. Salvaram-se os números musicais de Pecadores, reproduzindo o momento I Lied To You no filme; e Guerreiras do K-Pop, com a indefectível Gold interpretada por suas cantoras reais.

Restou falar de Timothée Chalamet e o zero Oscar para Marty Supreme. Acho que os comentários infelizes – tirados do contexto – não foram tão decisivos para a queda de sua candidatura a Melhor Ator quanto a soberba e exagero de sua campanha. Parecia o próprio personagem que interpretou, disposto a passar por cima de tudo e todos para atingir a grandeza a que ele se acha merecedor. Tambem colaborou a revelação do escândalo em torno do diretor Josh Safdie envolvendo a exposição de uma atriz menor de idade, que inclusive levou ao rompimento com o irmão e parceiro em Joias Brutas, Benny.

Infelizmente, temo que vai demorar para o Brasil voltar ao Oscar com toda a comoção que aconteceu nos dois últimos anos. Não há nenhuma produção nacional causando nos festivais internacionais, e ainda pagamos o preço do descaso dos anos em que a Cultura foi escanteada pelo Estado. Ao contrário do que dizem os haters, o audiovisual não é um luxo, é uma indústria que gera empregos e eventualmente até divisas para o país. Haja visto a Coréia do Sul, que se tornou uma potência cultural e do soft power graças a investimentos governamentais.

por Marcos Kimura

Marcos Kimura é jornalista cultural há 25 anos, mas aficionado de filmes e quadrinhos há muito mais tempo. Foi programador do Cineclube Oscarito, em São Paulo, e técnico de Cinema e Histórias em Quadrinhos na Oficina Cultural Oswald de Andrade, da Secretaria de Estado da Cultura. Programa o Cineclube Indaiatuba, que funciona no Topázio Cinemas do Shopping Jaraguá duas vezes por mês.

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