Foram anos de espera, mas O Bosque Selvagem finalmente está chegando aos cinemas. A nova animação em stop-motion dos Estúdios LAIKA, dirigida por Travis Knight, estreia em 29 de outubro com distribuição da Imagem Filmes e transforma em aventura épica uma pergunta simples: até onde somos capazes de ir por quem amamos?
Levar o filme às telas exigiu paciência, trabalho e, principalmente, mãos humanas. Poucas pessoas conhecem esse caminho tão bem quanto Knight: do momento em que conheceu o livro que deu origem à produção, às primeiras exibições ao redor do mundo.
Mas como essa história começou? Foi em 2010, antes de existir um roteiro para os cinemas, que Travis Knight encontrou Colin Meloy, escritor e vocalista da banda The Decemberists, que lhe apresentou o manuscrito de seu futuro livro chamado O Bosque Selvagem, que viria a ser publicado apenas quatro anos depois, se tornando um best-seller do New York Times.
Naquele momento, o mundo criado por Colin brilhou os olhos do diretor que, um ano antes, viu Coraline e o Mundo Secreto (2009), a primeira animação dos Estúdios LAIKA, ganhar o coração de milhões de pessoas ao redor do mundo e ser indicado ao Oscar de Melhor Animação. “Eu me apaixonei imediatamente. Era extraordinário. Era boa demais para ser verdade. Nós com certeza tínhamos que fazer esse filme”, conta Knight.
Então, Travis conheceu a personagem que mudaria sua vida e que, coincidentemente, residia em Oregon, Portland, mesma cidade natal dele: Prue McKeel, uma adolescente esperta e determinada, capaz de fazer o impossível por quem ama.
Em O Bosque Selvagem, quando o irmão caçula, o bebê Mac, é levado por um bando de corvos, ela parte para resgatá-lo ao lado do colega de classe Curtis Mehlberg. O destino é a Floresta Impassável, um lugar que conhecia apenas pelos avisos do pai para nunca se aproximar dali.
Lá dentro, cercada por animais falantes, bandidos e figuras poderosas, Prue vê toda a autoconfiança que construiu ser posta à prova. Mais do que um resgate, a jornada se torna um aprendizado: medo e coragem podem caminhar juntos, crescer não exige abandonar a infância e o amor cobra muito mais do que qualquer talento.
Enquanto lia a história de Colin Meloy e admirava as ilustrações de sua companheira Carson Ellis, o que inicialmente se parecia com uma grande história de aventura e fantasia, revelou sua profundidade e, página por página, apresentou um enredo sobre luto e amor.
Sobre a tensão impossível entre se segurar e deixar partir. Sobre descobrir que o mundo é mais complicado, mais bonito e mais interligado do que todos pensam. Sobre esperança, coragem e medo, e sobre as escolhas impossíveis que o amor às vezes nos pede.
“Tinha a amplitude e a estranheza das grandes aventuras e dos contos de fadas que eu amava quando criança, mas havia algo revigorantemente contemporâneo correndo por baixo”, lembra Travis.
Collin, Carson e a LAIKA firmaram um acordo para a adaptação da história em uma animação stop-motion para os cinemas, porém, segundo Travis, havia um problema: “Descobrimos que não tínhamos a menor ideia de como fazê-lo. Porque querer fazer alguma coisa e ser capaz de fazê-la são duas coisas completamente diferentes. Imagino que essa seja uma das descobertas menos agradáveis da vida adulta”.
Então, O Bosque Selvagem esperou…

Dignos
Travis e a LAIKA esperaram o momento certo. Não porque não estivessem prontos, mas, segundo ele, “porque nós ainda não éramos dignos dele. Algumas histórias chegam exatamente quando você precisa; outras chegam décadas antes de você ser capaz de entender o que vinham tentando dizer”.
Enquanto O Bosque Selvagem esperava, a LAIKA seguia lançando outros filmes após Coraline. De 2010 a 2026, outros quatro filmes foram lançados e todos eles foram indicados ao Oscar de Melhor Animação.
Dentre eles estava Kubo e as Cordas Mágicas (2016), dirigido por Travis Knight, vencedor do BAFTA e indicado também ao Oscar de Melhores Efeitos Visuais. Desde 1994, com O Estranho Mundo de Jack, uma animação não era indicada a essa categoria.
Foi também em 2016 que a LAIKA recebeu a placa do Oscar Científico e Técnico pelo pioneirismo no uso de prototipagem rápida e impressão 3D na animação de personagens em stop-motion. Três anos depois, o estúdio venceu seu primeiro Globo de Ouro com Link Perdido (2019), dirigido por Chris Butler, roteirista de O Bosque Selvagem.
A cada novo filme, as árvores do bosque cresciam e o momento de espera se encurtava. “Quase sem perceber, aos poucos, dolorosamente, nos tornamos os cineastas que O Bosque Selvagem exigia que fôssemos. Não porque ficamos mais habilidosos, embora eu espere que sim. Foi porque aprendemos a escutar de verdade o que a história estava nos pedindo”.
A espera acabou.

Mãos Humanas
Foi em 2021 que O Bosque Selvagem cansou de esperar. Naquele ano, Travis Knight e uma equipe formada por mais de mil artistas, artesãos, técnicos e realizadores começaram a dar vida ao roteiro escrito por ele ao lado de Chris Butler, que já havia escrito ParaNorman, Kubo e as Cordas Mágicas e Link Perdido e mergulharia agora na missão de adaptar um livro pela primeira vez.
Diferentes equipes começaram a se preparar para que os bonecos fossem movidos. O design dos personagens começou a ser desenvolvido por uma equipe liderada por Thibault Leclercq, chefe criativo do departamento, enquanto a figurinista Deb Cook criava as pequenas roupas para os personagens.
Ao mesmo tempo, o diretor de arte Nelson Lowry criava os cenários do filme, trazendo todas as peculiaridades de Portland. Travis convidou também um dos diretores de fotografia mais celebrados do cinema a entrar num mundo que ele nunca havia fotografado: Caleb Deschanel, seis vezes indicado ao Oscar.
Com tudo pronto, a equipe de animadores entrou em ação. Nela, o Brasil estava representado pelo animador stop-motion Thiago Calçado, natural de Uberaba (MG), que já havia animado ao lado de Travis Knight em Kubo e as Cordas Mágicas, além de ter feito parte do time de outras grandes produções, como o vencedor do Oscar Pinóquio (2022), de Guillermo del Toro.
Agora, Travis Knight e sua equipe tinham uma missão. “Queríamos que as emoções em O Bosque Selvagem parecessem verdadeiras e reconhecivelmente humanas”, comenta o diretor, revelando que, apesar da grande equipe, o filme só seria um sucesso se ela não fosse percebida.
“Nosso filme foi feito à mão, um quadro por vez, e acredito que o público consegue sentir essa presença humana na imagem. Mas o artesanato nunca é o ponto. O sentimento é o ponto. A técnica é apenas o modo como comunicamos algo íntimo e vivo”, analisa o diretor.
“Não fazemos esses filmes para que as pessoas vejam o trabalho por trás deles. Fazemos para que, por um tempo, elas esqueçam completamente o trabalho e acreditem na vida diante delas”, completa.
Foram mais de 1.155 dias de trabalho do início até a conclusão da produção que conta com 2.804 planos em sua versão final. As gravações aconteceram em 132 cenários práticos construídos em 117 locações distintas, enquanto, frame por frame os 142.030 rostos substituíveis criados para a animação eram constantemente trocados para que fosse entregue a emoção real dos 233 bonecos.
“Numa época cada vez mais definida pela velocidade, em que imagens em movimento são conjuradas com algumas teclas, em que mundos inteiros se materializam com um clique de mouse e a própria imaginação é automatizada, o stop-motion promete outra coisa”, conta o cineasta. “Ele nos lembra de que algumas coisas merecem o seu tempo. De que a atenção tem valor. De que a devoção deixa impressões digitais. Às vezes literalmente”.
“Dezesseis anos se passaram. A floresta cresceu. Nós também. Olhando para trás, não acho que passamos dezesseis anos dando vida ao filme. Acho que o filme passou dezesseis anos dando vida a nós”, enfatiza Travis Knight. Chegou a nossa hora.

