A bilheteria de um bilhão de dólares alcançado por Homem-Aranha: Um Novo Dia – a melhor de 2026 – reforça um fato: o Cabeça de Teia é o super-herói mais popular do mundo. E nesta produção dirigida por Destin Daniel Cretton (Shang Chi e a Lenda dos Dez Anéis, Wonder Man), Tom Holland se consolida de vez como Peter Parker, e, talvez, o melhor dos três intérpretes do personagem neste século. O filme é sensacional, merece ser visto no cinema e como já se passaram duas semanas da estreia, esse review vai ter spoiler.
Encontramos o Amigão da Vizinhança se dedicando em tempo integral ao combate ao crime em Nova York. De onde vem os recursos? Herança de Tony Stark? Da Tia May? Verba da Prefeitura? Sabe-se lá, mas o fato é que em seu muquifo ele tem instalada sua IA E.V. (voz de Naomi Watts), monitorização de crimes e até uma máquina de costura robótica para confeccionar seus uniformes. Esqueça a perseguição do Clarim Diário ou a divisão da polícia em relação ao vigilantes, já que a ação se passa após a segunda temporada de Demolidor: Renascido, pois, numa cena rápida, ele recebe a chave da cidade da prefeita Sheila Rivera (Zabryna Guevara), ex-auxiliar do deposto Wilson Fisk. Nosso Amigão da Vizinhança tem como interlocutora no PYPD a detetive Jean DeWolf, vivida por Liza Colon Zayas, de O Urso, uma espécie de figura materna.
Pelas mídias sociais, Peter acompanha MJ (Zendaya) e Ned (Jacob Batalon) entrarem, estudarem e se formarem no MIT, sonho dos três que só os dois realizaram, enquanto enfrenta diversos inimigos da mitologia do Homem-Aranha, como o Lápide, Bumerangue, Tarântula, Escorpião (Michael Mando) e o s ninjas do Tentáculo, mas só os dois últimos terão relevância na história.
A coisa pega quando um blindado militar roubado sai em disparada pelas ruas de Manhattan, colocando em risco a vida dos civis e policiais, e além do Homem-Aranha, é perseguido também pelo Justiceiro (Jon Bernthal). Os dois não impedem que ele invada uma sede do Departamento de Controle Danos e liberte o Escorpião. Essa agência governamental surgiu após a Batalha de Nova York, inicialmente para recolher destroços alienígenas, mas posteriormente para vigiar e eventualmente conter super-humanos, como já vimos em De Volta ao Lar, Sem Volta para Casa, Mulher-Hulk, Ms. Marvel e Wonder Man. O misterioso antagonista tem a capacidade de possuir a mente das pessoas, e usando-as como fantoches, e aparentemente, quer invadir as fortalezas da agencia, que em Nova York, é comandado por Bill Metzger, nome de um personagem dos quadrinhos inimigo dos X-Men, e vivido por Tramell Tillman, o Milchick de Ruptura.
Para desvendar o mistério, Peter recorre a Yelena Belova (Florence Pugh), a nova Viúva Negra, cujo escritório é uma sauna russa na qual todos tem que tirar a roupa. A cena tem a função de lembrarmos que existem os Novos Vingadores, já que eles foram revelados em Thunderbolts com asterisco, que nem todo mundo viu. Nesse meio tempo, Peter reencontra Ned e MJ, só para descobrir que ela tem um namorado (hello-o, é a Zendaya!), o que o traumatiza de um jeito que faz com que o DNA aracnídeo reaja de um jeito não muito legal. Para tentar resolver o problema, ele recorre ao professor Brune Banner (Mark Ruffalo), que utiliza um aparelho para conter seu Id, o Hulk. Mesmo sem ter ido ao MIT, o herói prodígio cria um inibidor universal, que os fãs de HQ conhecem das aventuras dos X-Men. E seria um desperdício escalar Ruffalo sem que o Verdão não desse as caras, com direito a uma luta sensacional entre o Aranha e o Justiceiro.
Duas semanas sendo bombardeado por spoilers nas mídias sociais, já tinha confirmado a suspeita de que Sadie Sink, a Max (daí a referência V-Max?) de Stranger Things, era Jean Grey, e isso faz toda a diferença no entendimento do filme. Primeiro, que ela é uma das personagens mais poderosas da Marvel, segundo, que ela não seria uma vilã. Ainda assim, ela ameaça MJ, o que faz com que Peter/Aranha a procure para protege-la, mesmo sabendo que a ex não sabe quem ele é. E vem aqui aquela cena que aquece o coração das fãs, quando MJ/Zendaya levanta o máscara de Peter/Tom e o beija, remetendo à clássica cena do primeiro Homem-Aranha de Tobey Maguire e Kirsten Dunst. Só que era uma farsa: Jean já havia assumido o controle de sua amada (dava par adivinhar pelo fato da verdadeira MJ odiar se balançar na teia) e se joga do alto prédio, em outro easter egg da própria MJ em Sem Volta para Casa, Mary Jane/Kirsten Dunst em Homem-Aranha 2, e Gwen Stacy/Emma Stone em O Espetacular Homem-Aranha 2, todos em referência a uma das cenas mais chocantes das HQs da Marvel, que este velho fã leu numa edição da Ebal, em preto e branco.
Para surpresa de ninguém, o verdadeiro fdp é Metzger e o objetivo de Jean é resgatar a irmã Sara, raptada pelo Controle de Danos. Só que, ao ser capturada e submetida a experimentos dolorosos, a ruiva descobre que a irmã foi morta, e aí, todo o fanzone dos X-Men sabe do que ela é capaz quando fica furiosa.
O diretor Destin Daniel Cretton caprichou nas cenas de ação, cujo ápice é a luta do Aranha contra o Tentáculo, feito pela equipe de dubles de Jackie Chan. Justifica totalmente a transformação do centenário clã ninja em meros capangas de Metzger. O resgate de Jean se transforma numa transação para salvar o diretor do Controle de Danos, e quando tudo parece se resolver, com a participação decisiva da memória da Tia May (Marisa Tomei, inoxidável) um tiro do Justiceiro fere mortalmente o Homem-Aranha.
Lógico que ele não morre, salvo pela poderosa telepata, só para descobrir após uma convalescença que Frank Castle é capaz de chorar e que Nova Yorka ama seu super-herói. Abre-se ainda uma porta para que MJ e Ned se recordem da amizades do trio e temos que esperar todos os longos letreiros para a cena pós-créditos. Acreditem: dá para ir no banheiro e voltar a tempo de assistir a misteriosa coda.
Homem-Aranha: Um Novo Dia reacendeu o interesse no MCU, com Vingadores: Doutor Destino com data marcada para 17 de dezembro, e abrindo o caminho para a nova geração dos X-Men por meio de Jean Grey, com a qual, aliás, Sadie Sink confirmou seu talento. Como já disse no início, é provável que Tom Holland roube o posto que melhor Peter Parker de Tobey Maguire. Zendaya ameaça fazer de 2026 o seu ano, com o final de Euphoria, Drama, este Um Novo Dia, com uma atuação madura, e o vindouro Duna 3. E, finalmente, Jon Bernthal, vindo do especial O Justiceiro – que é melhor que boa parte da segunda temporada de Demolidor: Renascido – trazendo novas características para Frank Castle e impulsionado pela brotheragem com Tom Holland, que o considera seu mentor e que o ajudou no teste para Homem-Aranha.
Finalmente, além do diretor Creton, toda a equipe criativa devem ser elogiados, pela fluidez os movimentos do Miranha, com soluções práticas ao invés de CGI; as ótimas cenas de luta e fotografia sensacional. E o roteiro de Chris McKenna e Erik Sommers muito melhor que Sem Volta para Casa, também assinado pela dupla.
