Alejandro González Iñarritu é um cineasta ambicioso. Ou pretensioso. Se notabilizou com filmes que abordavam diversos personagens em torno de um acontecimento – Amores Brutos, 21 Gramas, Babel – para obras que passaram do metafísico, Biutiful, para a sátira a indústria do cinema – Birdman – e um tour de force para que seu protagonista vencesse o Oscar, O Regresso.
Agora, ele resolve fazer uma alegoria do capitalismo levando o mundo para o desastre, com o maior astro de Hollywood, um orçamento gigante e fracassa totalmente, tanto em bilheteria quanto nas críticas. Mas Digger não é tão ruim assim: o problema básico é que é uma comédia, mas o diretor tem pouco senso de humor. Também pode se questionar a necessidade de escalar um ator tão fora do phisique du rôle e cobri-lo de maquiagem e próteses para dar vida ao personagem. Funcionou com Tom Cruise em Trovão Tropical, mas era uma participação especial e uma sátira a uma pessoa real – e não, não é Harvey Weinstein, mas um outro executivo com quem o astro se desentendeu. A partir daqui, spoilers.
Digger (que significa escavador) Rockwell é um magnata do petróleo, que vive em sua enorme propriedade na companhia de seus funcionários e de sua gata idosa. Ao forçar uma escavação na Groenlândia a ir adiante, ele provoca o despendimento de uma geleira gigante que ameaça ao norte da Europa com um tsunami catastrófico. O presidente dos EUA, interpretado por John Goodman reúne seu gabinete – uma fauna de caricaturas – na casa de Rockwell, enquanto os militares querem bombardear a montanha de gelo, ação contraindicada pelo cientista-chefe do bilionário, o próprio Digger sugere ativar um firewall que vai filtrar as informações, de forma que, se não conseguem impedir os fatos, ao menos controlarão a narrativa.
Talvez o ponto alto do filme – e da atuação de Cruise – é quando ele fala ao Parlamento Europeu após o desastre, e após se atacado até fisicamente, faz um discurso cínico, em que divide a culpa dos desastres climáticos e geológicos que provocou com todo mundo, o que é verdade, mas em última análise fruto do consumismo desenfreado criado pelo capitalismo.
Aí ficamos sabendo que tudo é uma dramatização de eventos que já ocorreram décadas antes, e que o Digger que vemos é um ator interpretando-o. Dá-lhe metalinguagem! É quando surge o personagem de Jesse Plemons – um intérprete cada vez mais perto do seu Oscar – que é sobrinho do magnata retratado, patrocinador da peça e magnata de big tech. Ou seja, o dinheiro movendo-se do petróleo para a tecnologia como vem acontecendo, enquanto o mundo se acaba. É visualmente brilhante – e caro – mas a sensação é de ser meio over demais, o que acaba gerando um distanciamento emocional em relação ao que vemos na tela.
É meio como em Birdman, em que ele buscou montar um painel corrosivo da indústria cinematográfica de forma inegavelmente pretensiosa, e que os amantes de filmes de super-herói odiaram. Também não economizou no elenco, escalando atores como Sandra Huller (em ata desde Anatomia de Uma Queda) no papel da irmã do protagonista, que tem uma empresa verde; Riz Ahmed (O Som do Silêncio) como o cientista-chefe da corporação do magnata; Michael Stuhlbarg (Um Homem Sério) como o vice-presidente capacho; e Emma D’Arcy (A Casa do Dragão) numa ponta no final.
Digger já é mais um desastre financeiro para a Warner, juntando-se a Supergirl, vai cair na conta de Iñarritu e deve prejudicar as chances de Tom Cruise finalmente ganhar sua estatueta.
