Carrie, A Estranha – com este maravilhoso subtítulo nacional – é originalmente um romance de Stephen King que já teve três adaptações cinematográficas. A primeira, de 1976, melhor e mais famosa, é o primeiro grande sucesso de Brian De Palma e lançou Sissi Spacek ao estrelato (ela venceria o Oscar alguns anos depois). A segunda, um telefime feito em 2002; e a terceira, de 2013, tentou aproveitar o hype de Chloe-Grace Moretz após Kickass, sem sucesso (como, aliás, quase tudo que a moça fez).
Mike Flanagan, o homem por trás de A Maldição da Residência Hill, da Mansão Bly e Missa da Meia Noite, inicia seu contrato com o Prime Video transformando a conhecida história de Carrie White em uma série. O desafio já começa no fato do filme de 1976 não apenas ser conhecido, mas parte da cultura pop, especialmente o banho de sangue e o massacre subsequente (se é spoiler para você, sinto muito).
A trama é transportada para os dias atuais, quando as redes sociais elevaram o bullying de forma exponencial. Quando o pai de Carrie, Ralph (Tamoh Penikett, de Battlestar Galactica), morre num acidente (?) quando trabalhava numa construção, a assistência social e a polícia descobrem Carrie (Summer H. Howell) e sua mãe, Margaret (Samantha Sloyan, a ótima vilã de Missa da Meia-Noite), trancadas num armário. A família isolada do convívio do resto mundo, com apenas Ralph saindo à rua para garantir o sustento. Ao invés da fanática religiosa do livro e do filme de De Palma, Margaret, além da devoção a uma crença muito particular, também acredita em todo o tipo de teoria da conspiração, como estamos familiarizados também no Brasil.
Ela é obrigada a obter um emprego e Carrie a frequentar a escola. A escalação de Summer para o papel passou pelo crivo do próprio Stephen King, que é produtor-executivo da série. Ela encarna com perfeição a garota ingênua, porém inteligente e curiosa, que ao mesmo sofre com o bullying, fica maravilhada com as descobertas do mundo fora da casinha. Ela vira vítima preferencial da abelha-rainha Chris Hargensen (Alison Thorton), cuja melhor amiga, Sue (Siena Agudong, de Resident Evil – A Série), acaba se compadecendo de Carrie.
Um dos acréscimos interessantes dessa nova adaptação é o treinamento para casos de ataque, uma necessidade surgida pela epidemia de tiroteios em escolas nos EUA. Sem conhecer o contexto, Carrie se apavora e acaba liberando um pouco do seu poder. Mas não se compara à cena da primeira menstruação no banheiro – que também acontece na versão com Sissy Spacek – em que o choque da menina e a reação das outras alunas, que também não entendem como uma adolescente nunca foi informada sobre algo tão elementar, é uma sequencia determinante da série.
Flanagan tenta não fazer de sua Chris uma versão ainda mais maligna de Regina George, dando alguma tridimensionalidade, explicando seu comportamento diante do fim do casamento dos pais, John (Michael Trucco, da ensemble de Flanagan) e Madison (Heather Graham, que era uma estrela até o início deste século); e da ruína financeira familiar, que se entrelaça à morte de Ralph. Mas ao criar um canal no Instagram com o nome de Carrie e destilando os podres de todos na escola, ela entra num caminho sem volta.
Do corpo docente se destacam o diretor Hayle é vivido por Matthew Lillard, o eterno Salsicha de Scooby-Doo, e que tenta aplacar a fúria constante de Margaret sobre como sua filha é tratada; a professora de Educação Física, Rita, interpretada por Amber Midthunder, de Predador: A Caçada e Novocaine; e o conselheiro Peter é papel de Tim Bagley, de The Comeback, que tentam ajudar Carrie.
Entre os alunos, além das citadas, tem o namorado de Sue, Tommy (Joel Oulette, de Avatar: O ùltimo Mestre do Ar, da Netflix), um nice guy; Tina (Josie Totah, de Os Bucaneiros), admiradora e depois aspirante a nova Chris; e Emaline (Thalia Dudek, de O Sobrevivente), que parece ser uma amiga imaginária de Carrie, mas é mais que isso.
Como apesar de ser uma história muito conhecida, e o final dela ser apresentado logo no começo, este review é sem spoiler. Flanagan continua sendo um mestre das séries, usando a duração mais longa para desenvolver os personagens e incluindo camadas à trama. Ele faz uma ligação com O Iluminado, e cria uma misteriosa organização que caçaria pessoas superdotadas, integradas por Amanda (Katee Sackhoff, de Battlestar Galactica) e Adelaide (Katie Siegel, mulher de Flanagan e recorrente nos seus trabalhos). É o que dá o gancho para uma segunda temporada já confirmada, com uma história totalmente nova. E já afirmou que Carrie terá ligação com A Torre Negra, outra série baseada em Stephen King que ele vai produzir para o Prime Video.
