Ontem, 8 de setembro, foi o Star Trek Day e quando a série original comemorou 60 anos da estreia na TV. É incrível que William Shatner, o capitão James T. Kirk, ainda está vivo aos 95 anos e há cinco foi ao espaço de verdade. Foi um vôo suborbital, uma peça de marketing da Blue Origin, de Jeff Bezos. Isso é algo que a utopia criada por Gene Rodenberry não previu: que as viagens espaciais fossem controladas por bilionários da tecnologia, que, nas verdade, foram em grande parte inspirados pelas viagens da Enterprise, “audaciosamente indo onde homem nenhum jamais esteve”.
Muito se fala da diversidade na ponte de comando, em que na pilotagem e navegação estão o russo Tchecov (Walter Koenig) e o asiático Sulu (George Takei); na comunicação a oficial negra Uhura (Nichelle Nichols); e um alienígena, o vulcano Spock (Leonard Nimoy), como segundo em comando. Isso sem contar com o irritadiço doutor “Bones” McCoy (DeForest Kelley) e o engenheiro escocês Scott (James Doohan). Majel Barret, que interpretou a Número 1 no piloto e a enfermeira Christine Chapel na série regular, era amante de Roddenberry e posteriormente, sua segunda esposa, com quem ficou até a morte dele em 1991.
A Federação dos Planetas Unidos era uma espécie de ONU do espaço, enquanto a Frota Estelar era o equivalente à OTAN, já que, apesar da missão da Enterprise fosse explorar a galáxia, eles enfrentavam os impérios klingon e romulano, numa Guerra Fria espacial. Roddenberry e seus roteiristas incluíram conceitos científicos avançados, como o efeito estilingue, em que a gravidade de um corpo celeste era usado para acelerar a espaçonave, a ponto de, na série, ela viajar no tempo ao passado; buracos negros; antimatéria e a dobra do espaço para superar a velocidade da luz. O teletransporte, marca registrada de Star Trek, foi criado para superar a falta de orçamento para fazer uma nave auxiliar pousar em um planeta a cada episódio, e mesmo assim, há quem busque solucionar o problema de desintegrar uma pessoa e reintegrá-la com as mesmas informações de antes, como memória e características físicas.
Se em sua primeira vida, Star Trek durou apenas três temporadas, ao ser distribuído para emissoras locais exibirem para encher a programação, a série ganhou uma sobrevida. Ganhou uma versão em animação entre 73 e 75, e com o sucesso de Star Wars, veio o longa de 1979, que trouxe de volta a velha tripulação. Mas foi só no segundo filme, A Ira de Khan (1982), que a franquia pegou de fato, trazendo de volta um vilão da série original, interpretado Ricardo Montalbán. A tripulação original prosseguiu no cinema com À Procura de Spock (1984), A Volta para a Casa (um dos meus favoritos, de 1986), A Última Fronteira (1989) e A Terra Desconhecida (1991). Generations, de 1994, marca a passagem de bastão para os herdeiros na nova Enterprise comandada pelo capitão Jean-Luc Piccard (o shakespeareano Patrick Strearwt), cuja série A Nova Geração estreou na televisão em 1987, com enorme sucesso. Primeiro Contato, de 1996, que veio depois do fim do spin off, é o melhor filme da tripulação de Piccard, seguido por Insurreição, de 1998; encerrando com o péssimo Nemesis, de 2002.
Na TV, o sucesso de A Nova Geração (que termina em 1994), gerou os derivados Deep Space Nine (1993-1999), Voyager (1995-2001), que se passam no mesmo período de The New Generation, e Enterprise (2001-2005), que se passa antes de existir a Frota Estelar.
J.J.Abrams seria responsável pelo reboot do universo em Star Trek (2009), com Chris Pine como o novo Kirk e Zachary Quinto reencarnando Spock. Seguiram-se Além da Escuridão (2013) e Sem Fronteiras (2016). Na televisão acontece outro reboot com Discovery (2017-2024), que começa antes da era Kirk-Spock e viaja centenas de anos depois. Atualmente está sendo exibido Stranger New Worlds (2022), liderado pelo capitão Christopher Pike (Anson Mount), antecessor de Kirk no comando da Enterprise, e pretende introduzir um recomeço da Star Trek original, já tendo um Kirk (Paul Wesley), um novo Spock (Ethan Peck), uma Uhura repaginada (Celia Rose Gooding) e uma Chapel mais sexy (Jess Bush). Entretanto, esse recomeço não foi confirmado e com o fim de Strange New Worlds no ano que vem e o cancelamento de Starfleet Academy, estrelado pela vencedora do Oscar Holly Hunter, o futuro de Star Trek é incerto.

Quando a popularidade da série cresceu fora do ar e com dificuldade de encontrar emprego, Leonard Nimoy escreveu a autobiografia Eu não sou Spock, da qual evidentemente se arrependeu. Foi responsável pelo momento mais catártico do longas em A Ira de Khan (A necessidade de muitos superam a de um só), foi o único da tripulação original presente no reboot de J.J. Abrams do que ninguém ele encarnou o que Star Trek representava, um futuro brilhante, o triunfo da ciência e uma humanidade unida e sem preconceitos, coisas cada vez mais distantes no cenário presente.
