Quando começaram as notícias da produção de O Diabo Veste Prada 2, com os anúncios de Anne Hathaway, Emily Blunt e, acima de tudo, Meryl Streep de volta a bordo, o hype das pré-vendas de ingressos me fez pensar: é o Vingadores das(os) fashionistas.
Roberto Sadovsky afirmou que o filme não é fan service. Tá de brincadeira, né?
As referências ao filme original são constantes e a mulherada foi às sessões montada, como o público da Marvel, DC, Harry Potter e Star Wars iam caracterizados nas estreias das produções de suas franquias.
Além da óbvia nostalgia de um original de 20 anos atrás, o roteiro destaca como o jornalismo “de verdade” anda em xeque, assim como as antes poderosas revistas de moda (de arquitetura e decoração, gastronomia etc).
Vale lembrar que o primeiro filme surgiu de um livro e/ou acerto de contas de Laure Weisberger contra sua ex-chefe na Vogue, Anna Wintour, e acabou se tornando um acontecimento cultural como longa-metragem.
Porém, a Miranda Priestly de Meryl Streep ultrapassou em muito a fonte original.
Enquanto Wintour parece um Darth Vader da moda, com seus eternos óculos escuros, cabelo de capacete e figurinos parecidos com armaduras, a editora da fictícia Runaway desfila charme no seu penteado icônico, olhar intimidador e figurinos maravilhosos.
Originalmente, tanto a Miranda do livro quanto sua inspiração submetiam sua equipe aos gritos. Meryl disse ter se inspirado na forma de direção de Clint Eastwood – com quem trabalhou em As Pontes de Madison – para intimidar e insultar com voz baixa, mas cortante.
O Retorno
Encontramos Andy (Anne Hathaway) onde ela desejava estar no final de 2006: como jornalista consagrada e premiada.
Só que, no mundo contemporâneo, esse lugar é cada vez mais movediço e incerto, e um corte de orçamento coloca ela e os colegas de redação na rua.
Ao mesmo tempo, Miranda e a Runway se envolvem num escândalo involuntário envolvendo uma marca acusada de trabalho escravo (como inúmeras brands por aí).
A solução do magnata Irv (Tibor Feldman, que já estava no primeiro filme), dono do conglomerado da qual Runway faz parte? Contratar Andy, recém-premiada, para resgatar a credibilidade da revista.
O reencontro com Miranda e Nigel (Stanley Tucci) não é o que Andy esperava, mas apesar de ver que muita coisa não mudou, ela conhece a nova realidade, onde a revista impressa é uma mera formalidade para manter a marca Runway viva.
Andy conhece a nova Emily, Amari (Simone Ashley, de Bridgerton), que tem ainda a função de frear a língua da chefe por questões de RH.
Como primeira tarefa, Andy acompanha a dupla de chefes na missão de apaziguar um dos principais anunciantes, a Dior. E quem é a representante da grife francesa em Nova York? Emily (Emily Blunt), que tem um choque ao rever a antiga colega.
Após presenciar uma dura negociação, a jornalista percebe que terá muito trabalho para se mostrar relevante para a Runway, mas acima de tudo para Miranda.
Contemporâneos
Apesar do diretor David Frankel e a roteirista Alina Brosh McKenna (que escreveu a história-base de Cruella) serem os mesmos, o ritmo e desenvolvimento da trama são bem contemporâneos, ou seja, voltados para o público com déficit de atenção.
Tudo é sustentado pelo elenco talentoso e que mostra estar feliz em retornar aos personagens. Atores famosos aparecem como coadjuvantes, como Kenneth Branagh no papel de marido de Miranda; Justin Theroux fazendo o bilionário da tecnologia que namora Emily e Lucy Liu como a ex dele que virou uma bilionária famosa, mas reservada.
Só o novo interesse amoroso de Andy, Peter, é interpretado por um ator relativamente desconhecido, Patrick Brammall, da série Evil: Contatos Sobrenaturais, que acho que só eu assisti.
Se no filme de 2006, as únicas personalidades da moda que aceitaram aparecer foram Valentino e Gisele Bundchen (que exigiu que sua personagem não fosse uma modelo), dessa vez diversos ícones fashion disputaram aparições (a produção se deu ao luxo de cortar Sidney Sweeney), alguns em flashs rápidos, outros em participações de maior destaque, como Donatella Versace e Lady Gaga.
Curiosamente, apesar do corte de orçamento do conglomerado dona da Runway – que obriga a poderosa Miranda a viajar de classe econômica até Milão, em uma cena deliciosa – houve verba suficiente para todo mundo desfilar modelitos fantásticos durante a fashion week italiana, indispensáveis para o público-alvo do filme.
Passadas duas décadas, não apenas o mundo da moda mudou como o comportamento e regras de conduta.
Anna Wintour, que antes todos temiam que se indispusesse com quem quer que se associasse a O Diabo Veste Prada, hoje se ancora em Miranda Priestly, a ponto de avalizar, mesmo que sutilmente, a continuação.
E Meryl, do alto de sua posição de grande dama da atuação em língua inglesa, reafirma sua posição por meio de sua personagem mais famosa.
Perto dos 80, estaria ela acenando com uma aposentadoria? “Eu adoro meu trabalho”, responde a personagem, em nome também de sua intérprete.
