A série Lanternas acabou no dia das eleições brasileiras, 4, depois de ocupar por oito semanas o horário mais nobre da HBO/HBO Max, que são as 22h do domingo. Tendo como protagonista um dos principais e mais poderosos personagens da DC Comics, estreou cercados de expectativas, principalmente depois do longa de 2011 que fracassou em todos os sentidos.
O Lanterna Verde é o único dos grandes super-heróis cujo manto foi assumido por outras pessoas. Hal Jordan é o primeiro dentro da mitologia surgida a partir da Era de Prata, um piloto de provas que é escolhido pelo anel de Abin Sur, um lanterna verde que chega moribundo à Terra. John Stewart surge em 1972, criado pelos lendários Neal Adams e Denny O’Neil (que poucos anos antes haviam idealizado a viagem do Lanterna Verde e do Arqueiro Verde pelos Estados Unidos), com a intenção de dar espaço a personagens pretos no cânone da editora. Mas ele só se tornou realmente popular por causa da séria animada Liga da Justiça, em que ele era o Lanterna Verde.
A série de Tom King (Supergirl), Damon Lindelof (Leftovers, Watchmen) e Chris Mundy (True Detective) começa numa missão de Hal Jordan (Kyle Chandler, de Argo), o portador do anel, e John Stewart (Aaron Pierre, de Rebel Ridge), supostamente seu aprendiz, para investigar a cidadezinha de Rushville, em que aconteceu um tiroteio envolvendo alienígenas, no ano de 2016. Lá, eles conhecem a xerife Kerry Kane (Kelly MacDonald, de Onde os Fracos Não Têm Vez) e ficam sabendo que lá, tudo é controlado pelo poderoso Wil Macon (Garret Dilahunt, ator recorrente em papéis de vilão), sogro de Kerry. Hal e John descobrem que o incidente envolve um grupo de alienígenas liderados por Antaan (Paul Ben Victor, de True Detective), que estão em busca de vingança contra um Caçador Cósmico que destruiu seu planeta, mesmo à custa de destruir Rushville e seus habitantes. Este é o ponto de partida para a trama que envolve flashbacks explicativos e avanços ao tempo atual – atenção para spoilers daqui em diante – em que descobrimos já no final do primeiro episódio, que Hal foi morto com um tiro na cabeça.
Isso gerou uma comoção na comunidade nerdola, que não se conformou com o fim de um dos fundadores da Liga da Justiça e gerou inúmeras teorias envolvendo Paralax e uma conspiração de Sinestro (Ulrich Thomsen, que protagonizou Festa em Família, um dos filmes do Manifesto Dogma), o principal inimigo do Lanterna Verde, todas especulando que o herói não morreu de verdade. Para a tristeza da comunidade dos quadrinófilos xiitas, Hal foi mesmo de arrasto.
Para mim, essa confirmação chocante é um ajuste no DCU de James Gunn tenha apenas dois Lanternas, John e Guy Gardner (Nathan Fillion, que já apareceu no papel em Superman e Pacificador). Enquanto o último se adequa como policial espacial subordinado ao establishment dos Guardiões do Universo, enquanto o primeiro emerge desta série – ou minissérie, já que uma sequencia ainda não foi confirmada, apesar dos bons resultados de audiência – como um herói que não presta contas a ninguém.
Esta é a narrativa principal de Lanternas: como John Stewart se torna um Lanterna Verde outsider, que vai proteger apenas este planeta, e não um setor espacial como acontece com a Tropa. E a participação da ótima Laura Linney – três vezes indicada ao Oscar – como uma Guardiã adiciona o distanciamento dos alienígenas superpoderosos em relação ao que acontece nos planetas supostamente sob sua proteção. Apesar de aparecer sozinha, é uma referência à transformação daquele colegiado galáctico, originalmente garantidores da lei e da ordem no universo para uma instituição paternalista, patriarcal (afinal, eram todos machos) e anacrônica, conforme a leitura dos quadrinistas foi evoluindo com o tempo, e a escalação de Laura não deixa de ser um comentário a respeito.
E se John Stewart foi uma resposta a um universo DC quase todo branco nos anos 1960, na série, a participação de seu pai – a quem o anel havia originalmente escolhido – e principalmente sua mãe, Bernadette (Jasmine Cephas Jones, da série Ponto Cego, ótima), que explica à Guardiã a diferença entre ser preto e branco nos EUA, e dada a oportunidade, educa John para se tornar um homem sem medo, com uma metodologia que pode bem ser classificada de abusiva.

E temos Kelly MacDonald como a xerife Kerry Kane, uma fugitiva de Gotham que o Caçador Cósmico promove a chefe da Polícia para ajudar a ocultar sua identidade e que acaba se envolvendo com Hal Jordan. Para quem não lembra, ela estreou em Transpotting, teve o principal papel feminino em Onde os Fracos não Têm Vez, destaque na ótima série Borderwalk Empire e voz original de Mérida na animação da Pixar Valente. Se houver uma sequencia, deve ter um papel fundamental numa segunda temporada.
Mas Lanternas é construído em torno da dinâmica entre o Hal Jordan de Kyle Chandler e o John Stewart de Aaron Pierre. Eles não se limitam a ser parceiros, mestre e discípulo, rivais ou budy cops. Não é à toa que foram comparados a Matthew McConaghey e Woody Harrelson em True Detective. Lanterna Verde original da Terra, encontramos Hal quebrado por tudo o que viveu, a traição de Sinestro, a falta empatia dos seus chefes Guardiões e a suspeita/certeza que escalaram John para substituí-lo em vida. John, por outro lado, fruto de uma educação para se tornar um Lanterna preto, supera a criação abusiva, a vida militar e um ressentimento em relação a Jordan para se tornar um herói independente e, possivelmente, mais poderoso que seu antecessor ou seu colega Gardner, não apenas pela capacidade de concentração como por absorver os pontos fracos da Tropa: o amarelo e o medo.
Os nerdolas podem reclamar, mas vejo com entusiasmo a construção desse novo super-herói, que vai dar as caras novamente em Superman: O Homem do Amanhã.
