Quando não está encarando Deadpool nas telonas, Ryan Reynolds mantém-se no noticiário em produções pouco usuais – como Amigos Imaginários ou O Projeto Adam – ou então em filmes de ação como Mayday, disponível na plataforma Apple TV+. O roteiro, bastante genérico, não me chamaria a atenção se não fosse seu parceiro de tela: Kenneth Branagh.
O ator e diretor, formado pela Royal Academy of Dramatic Art e um dos maiores intérpretes de Shakespeare na atualidade já comandou alguns filmes de ação como Thor (2011) e Artemis Fowl: O Mundo Secreto (2020), mas nunca se arriscou como protagonista no gênero. Até agora.
Seguindo a linha de Liam Neeson (indicado ao Oscar por A Lista de Schindler), que se tornou um ex-agente vingativo na série Busca Implacável, e Denzel Washington (vencedor do Oscar por Dia de Treinamento), que também viveu um ex-agente que resolve proteger pessoas indefesas na série O Protetor, Branagh aproveita para trocar uns sopapos em Mayday.
Na trama – bastante clichê, como já disse -, o piloto da Marinha dos Estados Unidos, Troy Kelly (Reynolds), é enviado em uma missão secreta em território soviético em plena Guerra Fria. Porém, a espionagem não sai como planejada e ele acaba ejetando e caindo na vastidão da natureza russa, deixando-o isolado atrás das linhas inimigas.
Neste cenário pouco animador, acaba resgatado por Nikolai Ustinov (Branagh), um ex-agente da KGB ranzinza e excêntrico com uma queda pela cultura americana. Quando Troy pensar estar perdido, uma aliança improvável pode levar ao resgate do piloto e a um laço de amizade que nenhum dos dois imaginava.
Improvável
Como já disse – duas vezes, aliás -, Mayday passa longe de ser um refresco no gênero de ação, não fosse pelas cenas de luta protagonizadas por Sir Kenneth Branagh. Esqueça tudo que já viu do ator e diretor: aqui ele troca socos e chutes como um verdadeiro Jason Bourne aposentado da KGB, com um passado repleto de decisões questionáveis.
Aos poucos, enquanto se recupera de alguns ferimentos, Troy descobre outro ponto que os une: Top Gun. Fascinado pela cultura americana, Nikolai é fã do filme protagonizado por Tom Cruise, que já assistiu dezena de vezes em uma cópia altamente proibida na União Soviética. Um verdadeiro crime contra a pátria. Troy, por outro lado, resolve usar essa vantagem a seu favor.
Decidido a ajudar o piloto em troca de asilo permanente nos Estados Unidos, Nikolai aceita o desafio de levar Troy até a embaixada americana. Caçados pelo ardiloso Alexandre Volkov (Marcin Dorociński), a dupla passará por diversos desafios, mas descobrirá que existem muito mais motivos para se manterem juntos do que sugerem as ideologias com as quais foram doutrinados.
Esta amizade improvável leva a uma série de desafios, decisões equivocadas, traições e a descoberta de que ambos não são muito diferentes um do outro. Troy luta por seu país e por seu pai (David Morse), que está muito doente. Nikolai luta para esquecer o que aprendeu de seu país, mas principalmente por sua filha, Anna (Maria Bakalova), que espera tirar da União Soviética.
No entanto, sobrevivendo juntos, eles percebem que há muito mais em comum do que imaginam – e que não passam de meros peões no tabuleiro.

Química
Bem, se o roteiro não é exatamente um primor e as soluções do filme parecem simples demais, Mayday reserva uma boa química entre Reynolds e Branagh, mesmo que as expectativas estejam invertidas. É claro que, em um primeiro momento, o público espera de Ryan o papel de guerreiro. Por isso, ver Kenneth distribuindo socos e chutes vale, por si só, o ‘ingresso’.
E não vou aqui cometer o crime de etarismo e dizer que ele já está ‘experiente’ demais para isso. Ele é Sir Kenneth Branagh e pode estapear quem e como quiser. E se você pensa que ele não faz isso bem, pode mudar de opinião. Passado o estranhamento da cena inicial, o filme engata e se torna uma boa opção para uma Sessão da Tarde descompromissada.
Bom para a sétima arte, que acaba de ganhar mais um herói improvável, por mais que Shakespeare esteja repleto deles. A diferença é que, em Mayday, as aspirações e planos maquiavélicos são substituídos por testosterona.
E atenção: confira a cena pós-crédito, que ‘explica’ a origem do apelido do personagem de Ryan Reynolds. É absurda, mas elucidativa.

