Review | João, O Maestro

João, o Maestro deveria ter se chamado A Paixão segundo João, um nome mais interessante, mas que deve ter levantado objeções do ponto de vista religioso. Seja lá como for, o cineasta Mauro Lima (Meu nome não é Johnny) falha em mostrar a paixão do pianista convertido em regente por força das circunstâncias, entre outras coisas por falta de direção de atores, justamente uma avaliação feita por um de seus protagonistas, Selton Mello, hoje, um ótimo autor cinematográfico.

Em uma produção em que visivelmente houve recursos para filmagens no exterior, como elenco estrangeiro e direção de arte caprichada (que pontua com detalhes de cena a época em que a cena se passa, sem a necessidade de letreiros ou calendários), o texto é de uma pobreza de dar dó.

Uma cena exemplar dessa carência é quando a primeira esposa de João Carlos Martins (Rodrigo Pandolfo, de Minha Mãe é uma Peça), Sandra (Fernanda Nobre, de Malhação), o deixa em Nova York. O diálogo ente os dois chega a ser constrangedor de mal escrito e mal dirigido. O contraste entre Pandolfo, responsável pelo protagonista quando jovem, e Alexandre Nero, que assume na meia idade, é enorme, e prova o que Selton Melllo afirmou: o ex-comendador leva o personagem por conta própria, por seu carisma e tarimba, enquanto o nem tão jovem Pandolfo (já tem 33 anos) fica perdido em grande parte da metragem, sem um diretor que saiba conduzi-lo. Em termos de roteiro, além dos diálogos pobres, o drama do maestro Martins fica parecendo em certos momentos o quadro Joseph Climber, da trupe Melhores do Mundo.

Mas ainda assim vale a pena conhecer a trajetória de João Carlos Martins, que se torna um popstar da música erudita nos Estados Unidos, chegando a influenciar o rock progressivo, como sugere a cena em que ele é tietado por Keith Emerson, o tecladista do trio Emerson, Lake & Palmer (que seria muito mais divertida se bem dirigida). É uma pena, porque é uma história real de superação e amor à arte, que em mãos mais competentes daria num longa muito melhor.