Ninguém pode acusar Christopher Nolan de ser acomodado. Após ganhar seu cobiçado Oscar em Oppenheimer, ele deitou sobre os louros? Não! Se meteu a fazer sua versão do épico A Odisséia com um elenco mega estrelado. Gerou polêmica ao anunciar Lupita Nyong’o como Helena de Troia, ao escalar Elliot Page como um guerreiro grego, que muita gente achou que seria Aquiles (não é), entre outras. O poema de Homero foi considerado mito até meados do século XIX, quando o arqueólogo alemão Heinrich Schliemann encontrou o sítio arqueológico seguindo as descrições da Ilíada e Odisséia (não era exatamente Troia, que estava a algumas camadas abaixo, mas o local era lá). O que coloca as narrativas entre a lenda e a história. E Nolan capricha nos visuais, nas soluções para o fantástico e atuação e caracterização de seu elenco. E vai ter spoiler, mesmo que a história original tenha três ml anos.
O filme começa com um aedo (que eram os contadores de história que percorriam as cortes) contando a queda de Troia para os pretendentes à mão de Penélope (uma Anne Hatthaway intensa que deve ser indicada ao Oscar) e ao trono de Ítaca, liderados por Antinoo (Robert Pattinson, excelente). O jovem Telemaco (Tom Holland) assiste os bens de seu pai serem dilapidados e sua mãe sendo desrespeitada, ao mesmo tempo que seus candidatos a padrasto tramam a sua morte. Ele resolve partir para Esparta em busca de notícias de Odisseu com o rei Menelau (Jon Bernthal, o Justiceiro, que estará em Homem-Aranha: Um Novo Dia).
Enquanto isso, o protagonista (Matt Damon) está vivendo com a divindade Calipso (Charlize Theron, como uma deusa) em sua ilha, meio esquecido de quem é e o que precisa fazer. Embora tenha se apaixonado pelo herói, ela, que o salvou da morte, tenta reparar sua mente, que viveu incontáveis traumas até chegar até ali. E é para Calipso que Odisseu relembra os acontecimentos a partir do Cavalo de Troia.
Nos poemas homéricos, a intervenção dos deuses e suas aparições para os mortais é constante, mas apesar de muito citados, no roteiro de Nolan, a única divindade encarnada é Atena, interpretada por uma Zendaya de poucas falas, que é mais uma consciência e testemunha que uma ajuda divina a Odisseu.

O diretor é frequentemente acusado de diminuir o papel das mulheres em seus filmes, mas desta vez, sem mudar radicalmente a narrativa homérica, ele dá a elas o devido lugar. Sua Penélope não se resume ao modelo de virtude que se mantém fiel ao marido que não sabe se está vivo, mas uma soberana por 20 anos sem ter o direito ao trono de seu reino por seu sexo. A Circe de Samantha Morton (Minority Report) não é a feiticeira sedutora do poema, mas uma mulher de meia idade que já viu tudo que os homens são capazes e usa seus poderes como auto-defesa. Clitemnestra, mulher de Agamenon, não é uma adultera traiçoeira, mas vinga sacrifício da filha Ifigênia, executado pelo próprio pai para garantir bons ventos na partida a Troia. E sua própria irmã gêmea, Helena (eram gêmeas não idênticas, segundo a tradição, mas ambas são vividas por Lupita Nyong’o), não escapa incólume do episódio que provocou a Guerra de Troia, sendo desfigurada provavelmente pelo próprio Menelau.
A representação de Agamenon, o líder da incursão grega a Troia, é muito significativa. Seu rosto não aparece em nenhum momento, apenas sua vistosa armadura e seu elmo impressionante. Quando os portões de Troia são abertos, ele fica estático como um Darth Vader enquanto seus soldados invadem a cidade para destruir e massacrar. No filme, a motivação da guerra é menos o rapto de Helena e mais a eliminação de um poderoso rival nas rotas comerciais do Mar Egeu, algo históricamente mais provável e seu Agamenon representa essa ganância e desejo de conquista que é identificável com muitos líderes genocidas atuais.

Aliás, a invasão dos povos de mar, causadores do fim da Idade do Bronze, é constantemente citada. Obviamente, os heróis de Homero não tinham noção de que seu mundo chegaria ao fim, mas nós sabemos que o colapso da Idade de Bronze se estenderia ao Egito, às civilizações micênica, hitita, mesopotâmios entre outras, atribuído pelos registros remanescentes a supostos “povos do mar”, até hoje não identificados. As lembranças da Troia que ele ajudou a destruir, violando leis atribuídas aos deuses, o os crimes cometidos por ele e seus homens durante a jornada de volta, mesmo com diversos alertas para que não o fizessem, e a vingança brutal contra os nobres que se regaram com seus bens durante sua ausência, leva Odisseu a concluir que eles mesmos e seus contemporâneos são os ditos “povos do mar”, responsáveis pelo fim de seu mundo.
Em Oppenheimer, seu protagonista diz que se tornou a Morte, o destruidor de mundos, após sua bomba atômica explodir no deserto do Novo México. Voltando mais de 3 mil e duzentos anos, sua Odisseia revela outro fim de mundo novamente causado pelos homens por motivações semelhantes. Houve quem criticasse Matt Damon por interpretar o herói grego de forma taciturna e sombria, mas como o mais astuto dos homens, ele percebe que além do fim próximo, eles são os causadores do debacle, assim como a Humanidade em Interestellar é responsável por esgotar o planeta. No final, com seu auto-exílio ao lado de Penélope, ele busca um recomeço na direção do sol poente, na mesma direção em que Enéas, o príncipe troiano sobrevivente, navegará até chegar na Itália para dar o pontapé inicial a Roma. Mas isso já é Virgílio.
Enfim, Christopher Nolan constrói sua bela versão de uma das mais famosas histórias da literatura ocidental, mas não deixa de manter um pé no mundo contemporâneo.
