Quando comecei a ver Brasil 70 – A Saga do Tri, Rodrigo Santoro como João Saldanha me tirou da série. Saldanha, morto em 1990 cobrindo a Copa da Itália, é uma figura mítica do jornalismo, do futebol e da mitologia da noite carioca, mas de forma alguma tinha a pinta de galã do nosso ator hollywoodiano. Mas depois que me forcei a assistir, acabei gostando.
Por outro lado, foi muito mais fácil engolir Bruno Mazzeo como Mário Jorge Zagallo. Talvez por ser comediante – mesmo também não se parecendo nada com o único brasileiro campeão do mundo como jogador e técnico – sua verve humorista me fez lembrar o velho Lobo ao qual nos acostumamos em anos mais recentes.
Agora, o terceiro protagonista, o estreante Lucas Agrícola, é a cara do Pelé – mesmo sendo um pouco alto, isso funciona em cena.
Mesmo meio caricato, o Saldanha de Santoro retrata bem o dilema da esquerda entre a resistência contra a ditadura e o entusiasmo com a seleção de futebol prestes a fazer história.
A reconstituição é boa também, com detalhes como o bombril na antena das TVs de tubo em preto e branco, as ligações por telefone e outras curiosidades que devem soar como tecnologias antediluvianas para a Geração Z.
O objetivo da minissérie é trazer para os mais jovens um pouco do que foi a caminhada para o épico tricampeonato de 1970, não como História com H maiúsculo, mas como entretenimento.
Fica claro que não se quis fazer um recorte de biografia de Edson Arantes do Nascimento nem um tratado futebolístico-sociológico daquele momento. A ideia é contar em linhas gerais o tamanho daquela conquista e o que representou para o Brasil e o futebol em geral. Neste aspecto, funciona muito bem e até emociona.

Encenações e Reencenações
Uma das principais qualidades da produção foi a excelente encenação das partidas, num nível que não se vê não só no Brasil, mas no resto do mundo.
É muito melhor que os jogos do Richmond F.C., de Ted Lasso; o filme de guerra Fuga para a Vitória (1981), que contava com Pelé, Bobby Moore e Ardilles batendo uma bola; ou duas reencenações de campanhas históricas em Mundiais, como O Milagre de Berna (2003), sobre a vitória da Alemanha em 1954, e Duelo de Campeões (2005) longa que relata o esforço de jovens americanos para participar da Copa de 1950, quando venceram os ingleses por 1 a 0.
Isso para não falar da lamentável cinebiografia Pelé: O Nascimento de uma Lenda (2016), que felizmente quase ninguém viu.
A participação do casal de torcedores que acompanha seleção no México é outro elemento que funciona, assim como a utilização do rico anedotário que cerca o Tri.
A história de Felix ligando para a filha logo após a final foi contada pelo próprio em entrevista, e o berro “Eu Não Morri” que Pelé dá depois da conquista foi relatada por Rivellino, mas teria acontecido no vestiário.
O cartaz “Hoje não trabalhamos porque vamos ver Pelé” existiu, mas colocado nas ruas mexicanas durante uma excursão do Santos.
E uma coisa que eu lembro, era o drama de 1950 cercando a semifinal contra o Uruguai. Era o grande rival das vizinhanças do Brasil, já que a Argentina tinha campanhas pífias em Copas até então (nem se classificou para o México).
Especialistas já andam classificando Brasil 70 de “dramalhão mexicano”, mas eu prefiro ficar com Tostão, que mesmo apontando coisas que não foram bem assim, achou a “série bem feita, prazerosa de ver, possui ótimos atores, com ótimas reproduções dos principais lances” e que as coisas “inventadas e sensacionalistas” tem a função de “dramatizar uma grande conquista esportiva”. Opinião de quem estava lá.

