Review | Três Anúncios Para um Crime

O irlandês Martin McDonagh chegou com tudo em Hollywood. Em 2006, foi premiado com o Oscar de melhor curta-metragem por Six Shooter, um filme que já mostrava desde o início o humor negro e ácido com o qual o diretor trabalharia em seus filmes posteriores.

Em 2009, em seu primeiro longa, Na Mira do Chefe, McDonagh foi indicado ao Oscar de melhor roteiro original. Quase 10 anos depois, é a vez de McDonagh voltar com força às premiações e aos holofotes com Três Anúncios Para um Crime, mais uma história de sua autoria.

Acompanhamos Mildred Hayes (Frances McDormand de Fargo – Uma Comédia de Erros), uma mãe que perdera a filha de forma trágica e que aluga três outdoors em uma estrada na cidade de Ebbing para divulgar uma mensagem e afrontar a polícia local, chefiada por Bill Willoughby (Woody Harrelson de Planeta dos Macacos – A Guerra).

McDonagh entrega seu trabalho mais maduro até então com um texto muito bem escrito. Há diversas desconstruções de clichês e personagens extremamente ricos e inteligentemente levados. São todos profundos e ambíguos, sem maniqueísmos. É natural e humana a maneira com que ele trata todos e é elogiável a excelência de McDonagh em viajar entre comédia, drama e sarcasmo sem se perder. Seus personagens nunca têm mudanças de atitude de maneira forçada, sempre percebemos o gatilho para tal, sem que os diálogos sejam expositivos.

O elenco está em sua melhor forma em anos. Frances McDormand – premiada com o Globo de Ouro de Melhor Atriz em drama – é a dona do filme. Sua personagem, desde o princípio, não se mostra uma mocinha ou heroína a fim de redenção, é apenas uma mulher querendo justiça a qualquer preço, sem se importar com o certo ou errado – o diálogo de Mildred com Willoughby nos balanços é crucial neste ponto.

A dupla de policiais Willoughby e Dixon (Sam Rockwell de Sete Psicopatas e um Shih Tzu) também merece destaque. Sam Rockwell – premiado com o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante – traz o personagem que mais traduz o morador do interior norte-americano eleitor de Donald Trump. É bruto, esquentado, racista, homofóbico, inexperiente e só está em seu cargo graças aos panos quentes que Willoughby passa. Porém, é outro personagem que a história vai desconstruindo e vamos percebendo os porquês de Dixon ser daquela forma.

Os demais do elenco, mesmo que apareçam pouco, também estão ótimos, destaque para Lucas Hedges, que interpreta o filho de Mildred, e Peter Dinklage, o anão James, apaixonado por Mildred. Até mesmo Samara Weaving (A Babá), que aparece em apenas duas cenas como a jovem namorada do ex-marido de Mildred (vivido por John Hawkes de Inverno da Alma), consegue se destacar com poucas falas.

Extremamente atual, em tempos onde Donald Trump é o presidente dos Estados Unidos da América, Três Anúncios Para um Crime também tem seu lado político, mesmo que não explícito. Mais uma brilhante maneira de McDonagh expor suas críticas sem tirar força de sua trama, está tudo inserido em suas linhas de diálogos de maneira orgânica.

Um dos melhores filmes dos últimos anos, tanto cinematograficamente quanto em contemporaneidade, com certa semelhança com A Qualquer Custo de David Mackenzie e escrito por Taylor Sheridan, outro filme onde a crítica social e política se faz presente, e é até mais incisiva – seus personagens são extremamente corrompidos pelo que os cerca – e que também aposta no mesmo tipo de humor e situações.

Três Anúncios Para um Crime também tem semelhanças com alguns filmes dos irmãos Coen, dadas as diversas situações absurdas e espontâneas pelas quais os personagens passam, mas com a diferença de que os personagens de McDonagh não são tão caricatos e sim mais próximos de nossa – triste – realidade. É um retrato crítico de uma sociedade hipócrita e preconceituosa, repleto de um humor que, se não chega ao nível mórbido do curta Six Shooter, ainda assim é um humor incômodo.